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O conhecimento das eventuais relações entre o contexto climatológico e de qualidade do ar vivido e o desencadear de uma "crise asmática" que, recorde-se, representa, no Serviço de Urgência do Hospital de S. João, um considerável número relativo de utentes (Fig. e), pode traduzir-se, por um lado, numa melhor qualidade de vida para as crianças se a medicação adequada for antecipadamente prescrita evitando assim o agudizar da criseiv, e, por outro, numa planificação dos recursos humanos, das unidades de saúde, mais adequada à dimensão esperada de utilizadores.

A exaustiva pesquisa dos contextos climatológicos e da qualidade do ar presentes nestes meses e sequências críticas que constituiu o corpo principal deste trabalho, permitiu-nos concluir que a maior coincidência de crianças entre os 5 e os 10 anosv, na urgência do HS, com crises asmáticas aconteceu em dias com:

  1. temperatura média mínima inferior ao habitual;
  2. temperatura média máxima acima do "normal" em Março, Abril e Outubro, e, ligeiramente inferior ao habitual nos restantes meses;
  3. ausência de precipitação;
  4. velocidade do vento ligeiramente superior ao habitual;
  5. vento do quadrante Evi;
  6. nebulosidade superior ao habitual;
  7. a presença de situações de estabilidade atmosférica (anticiclone ibero-mediterrânico e atlântico subtropical) e circulação zonal, em altitude;
  8. concentrações de SO2 frequentemente acima do percentil 90.

A análise do comportamento dos elementos climáticos e das concentrações diárias de alguns poluentes atmosféricos, durante as sequências de dias críticos e, simultaneamente, nas 24h, 48h e 72h anteriores ao agravamento da patologia, permitiu-nos concluir que foi bastante frequente verificar a ocorrência de uma grande variabilidade térmicavii.

Apesar de não existir uma relação clara com a matriz climática e de qualidade do ar vivenciada pelas crianças nos dias anteriores, veja-se a título exemplificativo, como nos três dias mais críticos de toda a série – 6 de Março de 1990, 11 de Março de 1990 e 20 de Dezembro de 1991viii – parece perceber-se que existe uma associação com:

  1. o aumento contínuo da pressão atmosférica;
  2. uma enorme variabilidade térmica (nas mínimas e nas máximas);
  3. diminuição da velocidade do vento que sopra predominantemente de ESE;
  4. ausência de precipitação;
  5. aumento significativo da humidade relativa e da nebulosidade;
  6. situações de estabilidade atmosférica;
  7. concentrações de SO2 e fumos negros acima do percentil 90.

Conhecendo já alguns sinais de mudança climática nesta área geográfica (Capítulo G), traduzidos sobretudo, num aumento da temperatura e/ou no desaparecimento das estações de transição e alteração no ritmo climático inter-estacional e, sabendo os benefícios, para a definição de estratégias de desenvolvimento sustentável de espaços urbanos, que um reforço das ligações entre a Climatologia e as Ciências da Saúde pode carrear, pelo menos, para motivar os decisores e os fazedores de cidades a adoptar o Princípio da Precaução, nos casos de dúvida ou desconhecimento, pensamos ter, com este projecto de investigação, iniciado uma via de investigação interdisciplinar aplicada, cujos resultados obtidos (Fig. g), nos permitem assegurar que não termina com o fim oficial do Praxis XXI, PCSH/GEO/198/96.

O reconhecimento desta grande dependência entre os novos padrões de desenvolvimento económico e a qualidade das diversas componentes ambientais, faz com que, até do ponto de vista económico, se torne urgente reverter, absolutamente, os inúmeros impactes ambientais adversos detectados na região da Área Metropolitana do Porto.

A demonstração da coincidência entre os momentos de maior afluxo à urgência do HSJ de crianças com crises asmáticas nos dias de grande variabilidade térmica, com ausência de precipitação, com velocidade do vento ligeiramente superior ao habitual e do quadrante E, com nebulosidade superior ao habitual e com a presença de situações de estabilidade atmosférica (anticiclone ibero-mediterrânico e atlântico subtropical) e de circulação zonal, em altitude, e com elevadas, ainda que fugazes, concentrações de SO2, NO, CO e alguns metais pesados na baixa atmosfera, veio sublinhar:

  1. a importância científica de prosseguir na investigação transdisciplinar no domínio da Climatologia e da Saúde;
  2. a importância da elaboração de políticas de desenvolvimento sustentável de espaços urbanos ancoradas numa leitura sistémica deste tipo de tecidos territoriais, reconhecendo que a saúde e a qualidade de vida dos utilizadores depende também do clima e da qualidade do ar do lugar em que vivem e que estes são profundamente alterados pelas opções de localização de pessoas e actividades que se adoptar;

a importância para a gestão dos recursos humanos dos serviços de saúde da antecipação dos contextos climatológicos e de qualidade do ar potencialmente promotores de agravamento de crises asmáticas.


iv.O Professor Luis Delgado, imunologista do HSJ, deu, na comunicação oral que apresentou no Clias’s Workshop, realizado em Outubro de 1998, inúmeros exemplos de crises asmáticas desencadeadas pela ocorrência de estados de tempo inesperados. Existe, no serviço, uma prescrição de medicamentos programada de acordo com a expectativa de ocorrência de determinados estados de tempo típicos em cada estação do ano. A antecipação de uma sequência de estados de tempo típicos, por exemplo, de Inverno, no início de Outono, apanha desprevenidos e desprotegidos os asmáticos, aumentando o afluxo à urgência.  [ continuar ]

v.Os meses críticos para as crianças dos 5-10 anos foram: Janeiro, Abril, Junho e Outubro de 1989, Março, Setembro, Outubro e Novembro de 1990, Outubro e Novembro de 1991, Outubro de 1992 e Janeiro de 1993.
As sequências críticas para as crianças dos 5-10 anos foram: Abril, Julho, Setembro, Outubro e Novembro de 1989, Fevereiro, Março, Junho e Setembro de 1990, Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro de 1991, Setembro de 1992, Setembro e Outubro de 1993, Setembro de 1994, , Novembro de 1995 e Outubro de 1996. [ continuar ]

vi.Na região portuense os quadrantes predominantes do vento na Primavera e Verão é de N ou NW e no Outono e Inverno de E ou ESE. [ continuar ]

vii.Quer na temperatura mínima, quer na temperatura máxima, [ continuar ]

viii.No dia 6 de Março de 1990 e no dia 20 de Dezembro de 1991 acorreram à urgência do HSJ, 8 crianças com crise asmática. No dia 11 de Março de 1990 foram atendidas na urgência do HSJ, 9 crianças com crise asmática. [ continuar ]

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Comentários: clias.clc@mail.telepac.pt
Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Última alteração em: 29-09-2000
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