O problema ontológico é formulável
de uma forma muito
simples (O que é que há?) mas permite um desacordo
total acerca dos casos. Ou seja, a esta pergunta
podemos responder de um modo muito vago: Há tudo!;
ou
podemos responder de um modo pragmático: Com que é
que
uma teoria ontológica nos compromete?
Afirmar que A e B diferem ontologicamente
é afirmar
que A defende que existe alguma coisa enquanto B
defende que essa coisa não existe (ex. classes;
números; mentes...)
O problema do proponente do lado negativo
num
diferendo ontológivo (x não existe) é
o velho enigma
platónico do não ser. Como é possível
falar do que não
existe?
O enigma platónico do não ser
pode levar-nos
(erradamente, segundo Quine) a reconhecer existência
em casos em que poderíamos ficar satisfeitos
reconhecendo que não há nada. (ex. ?Falamos
de Pégaso,
logo Pégaso existe)
Uma hipótese acerca da existência
de Pégaso é
considerar que esta é uma existência enquanto
ideia e
não a existência de um particular espacio-temporal.
Para Quine essa não é uma boa solução:
basta comparar
Pégaso com o Parténon. O Parténon real
espacio-temporal é diferente da ideia de Parténon.
Uma alternativa, atribuída a Wyman,
é a de considerar
que Pégaso tem o seu ser como possível não
realizado.
Ou seja, ao afirmar ?Pégaso não existe?, estamos
apenas a afirmar que ele não tem o atributo particular
de ser real. Wyman admite entidades possíveis, e faz
uma distinção entre Existência e Subsistência.
De acordo com a perspeciva de Wyman, aquilo
que ?há?
inclui possíveis e entre esses possíveis existem
os
realizados e os não realizados. Assim, devemos dizer
que coisas reais existem mas muito mais coisas
subsistem sem terem o atributo de existência.
Quine discorda da ontologia apresentada por
Wyman.
Quine basicamente acredita que num universo cheio de
possíveis nem sequer é possível utilizar
o conceito de
identidade, e sem este conceito o nosso pensamento é
impossível.
Faríamos melhor se simplesmente limpássemos
a amálgama
de Wyman e nos livrássemos dela.
É este o principio metodológico
da ontologia de Quine.
Entre a "Barba de Platão" e a "Navalha
de Ockam" Quine escolhe o
minimalismo de Ockam, ou seja, a não proliferação
de
teorias e entidades desnecessárias.
Quine vai buscar à Teoria das Descrições
Definidas de
Russell a solução para o problema do excesso
ontológico. O mérito da solução
de Russell consiste no
facto de ela evitar o compromisso com a existência de
entidades nomeadas (Pégaso, cúpula quadrada-redonda
do
Berkley College...)
Russel mostrou como se pode usar nomes aparentes sem
daí se supor que existam as entidades por ele
nomeadas.
O passo de Russell para Quine é o
seguinte: a carga da referência
objectiva das linguagens é transferida dos nomes ou
expressões descritivas para aquilo que os lógicos
chamam de variáveis ligadas, ou de quantificação,
que
têm como análogo palavras como, algo, tudo, nada,
e
que são uma parte básica da linguagem, dotadas
de
sentido.
Ou seja, algo pode fazer sentido (meaningfull)
e não
ter sentido (meaning). Isto é, algo pode fazer sentido
sem com isso implicar que as nossas variáveis tenham
uma realização, um sentido. Não é
portanto necessária
uma referência objectiva para que um termo faça
sentido. Ao contrário do que pensa o hipotético
filósofo McX, para quem Pégaso tem de alguma
forma de
existir, para que a palavra tenha sentido.
A proposta de Quine quanto a termos singulares
é de
que é sempre possível uma análise à
maneira de Russell
- ou seja: não é necessária uma referência
objectiva
para que um termo faça sentido. O problema mais
difícil não são os termos singulares,
mas os
universais, que são mais resistentes a uma explicação
nominalista.
Mesmo assim, graças a Russell já não
precisamos de ser
vítimas da ilusão de que o facto de que uma
frase
declarativa com um termo singular ter sentido
pressupõe uma entidade nomeada pelo termo. Não
é
necessário que um termo singular nomeie para ter
sentido.
O problema dos universais é o seguinte:
será que
existem entidades, tais como classes, números,
funções, relações ou atributos?
Note-se que sem estas
entidades não é possível o conhecimento
cientifico do
mundo natural.
Segundo a posição nominalista
de Quine acerca dos universais
é possível admitir que há rosas
vermelhas, maçãs vermelhas, casas vermelhas,
etc., sem
admitir que essas rosas, maçãs e casas tenham
algo em
comum que subsiste por si (a vermelhidão).
Para Quine, o facto de rosas, maçãs e casas
serem
vermelhas é um facto último e irredutível.
Isso poderia levar-nos a declarar que os
universais
são sentidos, mas Quine pensa que os sentidos não
são
uma perspectivação real da natureza. A base
da recusa
quineana dos universais é precisamente a recusa dos
sentidos.
Isto não significa que Quine defenda
que as palavras e
as frases não têm sentido, significa apenas que
Quine
defende que não existem entidades abstractas a mais,
paralelas ao comportamento linguístico dos seres
humanos, que seriam os sentidos.
Como vimos, existe um hiato entre ter sentido
e
nomear. Não é necessário que algo exista,
ou seja
nomeado (objecto ou conceito abstracto) para que uma
palavra tenha sentido. O sentido de uma palavra não
é
o objecto nomeado.
No exemplo de Quine, o hipotético filósofo McX
insiste
em atribuir ao sentido uma certa entidade abstracta.
Quine defende que uma frase ou palavra pode ser
significativa e não ter sentido (enquanto que se
entenda por sentido uma qualquer entidade).
McX confundiu o alegado objecto nomeado Pégaso com
o
sentido da palavra Pégaso, concluindo assim que Pégaso
tem que existir para que a palavra tenha sentido.
A ontologia de uma pessoa é básica
relativamente ao
esquema conceptual através do qual ela interpreta
todas as experiências, mesmo as mais vulgares. (...)
Julgada noutro esquema conceptual, uma frase
declarativa que é axiomática para o espírito
de alguém
que se inscreva nessa ontologia (há o universal
vermelhidão) pode, com igual imediatez e trivialidade,
ser declarado como falso.
Os argumentos de Quine, até ao momento, foram:
1) Como demonstrou Bertrand Russell na sua
Teoria das
Descrições Definidas, os termos singulares podem
ter
significado (no sentido de serem significantes e não
no sentido de possuírem eles mesmos um significado)
sem se pressupor que existam as entidades que esses
termos têm o propósito de nomear.
2) Podemos usar termos gerais, sem ser preciso admitir
que eles sejam nomes de entidades abstractas
(universais).
3) Aquilo que normalmente se chama ?dar sentido a uma
elocução? consiste simplesmente em empregar
um
sinónimo. Ou seja, não é necessário
aceitarmos um
domínio de entidades chamadas sentidos.
O problema dos universais (de nos comprometermos
ou
não nos comprometermos ontologicamente com as
entidades abstractas que são os universais) é
ultrapassado se na nossa teoria ontológica escolhermos
comprometermo-nos com entidades (rosas vermelhas,
maçãs vermelhas, casas vermelhas) mas não
necessáriamente com entidades abstractas como a
" vermelhidão".
O problema dos universais é ultrapassado
quando
escolhemos uma ontologia de entidades abstractas. Ou
seja, consideramos que quando nos referimos a
entidades abstractas, fazemo-lo porque essa é
simplesmente a nossa maneira de falar.
Uma teoria está comprometida com uma
ontologia quando
as variáveis dessa teoria se referem às entidades
ontológicas de um modo tal que as afirmações
feitas
nessa teoria sejam verdadeiras. Muitos problemas
filosóficos surgem devido a confusões acerca
de qual o
domínio de entidades às quais se deve permitir
que as
teorias se refiram.
Os medievais tiveram três abordagens
ao problema dos
universais: a realista, a conceptualista e a
nominalista.
Abordagens que correspondem na filosofia do sec. XX,
respectivamente à abordagem logicista, intuicionista
e
formalista.
O realismo é a doutrina dos universais
platónicos
(entidades abstractas que subsistem independentemente
da consciência). Doutrina a que no sec. XX corresponde
o Logicismo de Frege, Russell e Carnap.
O conceptualismo, da mesma forma que o intuicionismo
actual, defende que há universais, mas que esses
universais são produtos da nossa consciência.
Os formalistas, como os antigos nominalistas,
objectam
de todo a admissão de entidades abstractas, mesmo que
produzidas pela consciência.
Ou seja, o género de ontologia que
se adopta
(realismo, conceptualismo, nominalismo, logicismo,
intuicionismo, formalismo...) tem consequências nas
teorias que caem debaixo do seu manto ontológico.
Mas como é que se pode decidir entre
ontologias
rivais?
Quando olhamos para uma teoria, que actua
dentro de
determinada ontologia, não procuramos saber o que é
que há. Procuramos, antes, saber o que é que
essa
ontologia diz que há. Mas o que é que há
é outra questão.
A discussão acerca do que há
deve ser tratada, antes
de mais, ao nível semântico, pois uma vez que
eu adira
à minha ontologia não posso autorizar que as
minhas
teorias se refiram a entidades que pertençam a outra
ontologia e não há minha. Posso no entanto discutir
o
desacordo entre duas ontologias.
Apesar de alguns desacordos básicos
entre ontologias,
há por vezes pontos de convergência em níveis
mais
superiores que possibilitam o diálogo. Enquanto for
possível esclarecer linguisticamente ambas as posições
ontológicas, o diálogo é desejável.
Como tal, uma controvérsia ontológica
deve tender para
uma controvérsia acerca da linguagem.
O que não quer dizer que o que há
dependa de palavras,
mas apenas que o que há é traduzível
linguisticamente.
Então o que é que há?
Há aquilo que nos convém - em termos de simplicidade
e
operacionalidade - que haja.
Segundo Quine adoptamos uma ontologia da
mesma forma que adoptamos uma teoria cientifica.
Adoptamos o esquema conceptual mais simples no qual os
fragmentos desordenados da experiência em estado bruto
possam ser ajustados e ordenados.
Quine chama a este método de adoptar
uma ontologia, a
regra da simplicidade.
A regra da simplicidade é, segundo Quine, a nossa
máxima condutora ao fazermos corresponder dados
sensíveis e objectos.
A seguir Quine apresenta-nos dois esquemas
conceptuais
(duas ontologias, portanto) distintas: o fisicalismo e
o fenomenalismo.
Qual dos dois deve permanecer?
Cada um tem, à sua maneira, a sua simplicidade
específica.
Um é epistemologicamente fundamental (fenomenalismo)
enquanto que o outro é fisicamente fundamental
(fisicalismo).
O fisicalismo é a tese de que o mundo
real nada mais é
que o mundo físico, como tal, simplifica a nossa
explicação da experiência associando os
inúmeros
acontecimentos sensoriais a objectos únicos.
O fisicalismo contemporâneo considera que a física
é o
questionário básico (o mais básico) acerca
da
natureza. Como tal a ontologia tem de se virar para a
física.
O fenomenalismo desenvolve a ideia segundo
a qual os
objectos são as possibilidades permanentes da
percepção, e como tal não é de
todo provável que cada
frase acerca de objectos físicos possa ser traduzida
na linguagem fenomenalista.
Os objectos físicos unificam e simplificam
a nossa
explicação do fluxo da experiência.
Quine procurou mostrar que alguns argumentos
a favor
de algumas ontologias são falaciosos. Além disso
propôs um padrão explícito por meio do
qual
se decide quais os compromissos ontológicos de uma
teoria.
No entanto, a questão acerca da ontologia que se deve
adoptar permanece em aberto. Devemos manter, quanto a
esta questão, um espírito crítico, tolerante
e
experimental.
É no entanto, diz-nos Quine, uma exigência
natural
seguir com a física. O que há, defende Quine,
deve ser
procurado pela física.
Por outro lado, para aqueles que decidiram
adoptar um
ponto de vista fenomenalista, que exige prioridade
epistemológica, as ontologias fisicalistas não
passam
de mitos.
Todavia a qualidade do mito é relativa. Neste caso,
relativa ao ponto de vista epistemológico, que é
apenas um entre muitos, e ao qual corresponde um entre
muitos dos nossos interesses e objectivos.