VIDA DE ERASMUS VIDA DE
ERASMUS
CLÁUDIA COIMBRA
– És feliz?
A pergunta soara estranha, vinda de alguém
que nunca dava a entender se estava inserido ou não neste pedaço de galáxia. A
pergunta partira, a baixa voz, inesperada, de alguém que se suicidaria meses
mais tarde. Mas naquele momento, à saída do bar Torino, em Campo San Luca, não
havia tempo ou disposição para ler o futuro. Ainda que um pouco surpreendida,
tentei não fixar intensamente a barbicha do Ricky, como sempre que procurava
uma resposta digna de desencadear nova discussão. Teria sido demasiado fácil
dizer que não. E elencar um sem número de razões para estar contra o “sistema”,
a globalização, a vida demasiado cara numa cidade como Veneza, as escadas
escorregadias da ponte de Rialto, a disposição dos planetas... Enfim! Só que,
antes de o dizer, lembrei-me que nessa tarde partilhara uma maçã Granny Smith,
dura e suculenta, com o Marko no escuro da sala TV, enquanto víamos um filme e
ríamos histericamente.
Respondi: – Sim, sou feliz.
Sempre soube que o seria. A
quilómetros de distância do mundo que até ali conhecera, do país onde nascera –
para me ver transformada em cidadã transnacional.
À partida, ser ERASMUS era ser
diferente, privilegiado, corajoso. Era viver na previsão das coisas, ser motivo
de espanto. Era desconhecer o que me esperava. E por isso mesmo querer partir
com mais força, querer voar, agarrar a oportunidade com maior convicção. Para
lá das burocracias, das leituras aconselhadas, das diligências habituais que
antecedem a deslocação – para lá disso tudo estava a vontade de experimentar
uma liberdade distinta de todas as outras: o sonho que transportava, prestes a
realizar-se, com a sua adequada quota de sofrimento e felicidade.
O sofrimento era momentâneo –
demoraria a aparecer de novo mal se retirasse. Faria somente a sua entrada
lancinante no final do percurso. Quanto à felicidade, essa, vinha em
fragmentos, decerto antológicos, que instituíam uma peculiar indiferença por
tudo o que não lhes dissesse respeito. Mas era compreensível. E era tão bom
sermos compreendidos e compreendermos os outros de maneira diferente!
Quando pagávamos a renda em atraso,
no gabinete de projectos europeus, onde todas as sobrancelhas se erguiam,
disfarçando austeridade, sabíamos perfeitamente que ser Erasmus era
precisamente não dramatizar situações que nos levariam ao desespero (e à bancarrota)
em circunstâncias ditas normais. Havia coisas mais importantes do que 150 Euros
pagos a tempo e horas.
Havia a noite, passada em árdua
dedicação ao estudo, com os comentários amargos da Marijana, sugerindo
gargalhadas, e a discussão da próxima partida a pregar ao Lorenzo. Quando
alguém chegava tarde, podíamos embalar milhentas considerações ao som dos
passos cuidadosos no corredor (programa nocturno que valera a pena? desilusão
completa?). Na sala de trabalho espreguiçava-se cansaço; desligava-se a aparelhagem,
maldizendo, entre bocejos, as aulas às 9 da manhã, do outro lado da cidade.
A distância era coisa pouca, na
verdade. Percorrida de uma ponta à outra, a cidade não escapava. Era lugar de
prodigioso abandono às sensações. A par desse mundo em construção, feito de
outra Arte, outra Arquitectura, outra História, havia quem fosse igual a mim.
Quem fugisse frequentemente à multidão e redobrasse a intensidade da percepção
maravilhada.
A elaboração de um manual de
sobrevivência pressupõe que este seja único e pessoal. Essa sobrevivência
depende da nossa determinação em crescer, mas igualmente do sorriso que
fotografamos, da mão que pousa inesperada no nosso ombro, da frase sussurrada
que nos faz rir ou pensar. Até do beijo que não ousamos por estarmos confusos
ou perdidos no turbilhão de sentimentos que se deitam e acordam connosco.
Dependemos do gesto mais ínfimo,
incalculável, valioso. Do mais pequeno vício partilhado (leve ou pesado) – e da
virtude que se descobre comum. Coisas que nos despem e nos revelam e nos
deixam, como árvores de Inverno, perante o julgamento do outro. Sem nada temer.
Por mais inquietante que nos pareça, esse medo não surge porque quase
antecipamos a palavra que entende e o olhar que entra em nós. Por vezes o
abraço que não se espera.
Pela primeira vez partilhava a minha intimidade com imensa gente. E sabia que, mais cedo ou mais tarde, essa seria uma grande arma contra o esquecimento. Uma manhã, ao atravessar a ponte della Accademia, a Julie, atirando o olhar para os dois lados do Canal Grande, perguntou-me, sem esperar pronta resposta, se alguma vez me tinha apercebido de que “aquilo” era nosso todos os dias. E foi como se, mais uma vez, me desse conta do quanto nos unia – não era só o espaço, era a noção de partilha desse espaço que inicialmente nos aproximara e que, dependendo da nossa vontade, nunca nos separaria.
A pergunta
“Que será de nós?”, em poucas ocasiões repetida – para não ferir e não obrigar
a adivinhar a saudade –, era a catapulta que disparava inúmeras questões
filosóficas e existenciais. Em linhas
gerais, havia a incerteza do que somos e do que queremos. Depois, com mais
consenso, a reformulação da identidade, universal: a certeza de que não
queremos deixar de ser o que somos ali, naquele momento só nosso.
Aí então, e em outras fases da viagem interior que iniciara, podia olhar para mim sentindo-me como me sentira ao visualizar as “Highlands” escocesas anos antes: minúscula e enorme, de uma só vez, aquela primeira, que nos subtrai o fôlego. Teria, claro, muito a percorrer ainda, mas notava uma espécie de maturidade inexplicável, surpreendente. Orgulho. Havia depois a loucura necessária. Mas essa sempre esteve implícita, pré-conhecida e aguardada. Falo de um sopro invariável, que acalentava o desejo de ser uma pessoa melhor, num espaço já não estranho mas invulgarmente familiar.
Podia ter respondido àquele amigo
indecifrável que era feliz em cada noite de estrelas, avistada do campo de
jogos da residência universitária. Feliz em cada viagem imprevista, solitária e
definitivamente enriquecedora [Apanhar o comboio e sair em Treviso, bem cedo,
numa manhã de sol. E ter o dia só para mim]. Feliz em cada olhar cúmplice, como
aquele que troquei com a Helena antes mesmo que me dissesse que sucumbira aos
encantos do Simone. Feliz em cada aula que descobria acrescentar algo novo ao
meu património cognitivo, tão longe da FLUP.
Sim, Ricky, sou feliz porque estou
viva, e respiro o assombro dos instantes que contam. Porque continuo a busca,
porque viajo e regresso a certos sítios para regressar a mim, reproduzindo,
renovada, a primeira vez em que me senti livre, sob uma nova perspectiva, uma
outra dimensão.
Talvez
não saibas o que pretendo dizer, apesar de também tu teres sido Erasmus.
Barcelona 2000, se bem recordo. Talvez tenhas falhado. Não compreendeste que
também para as desilusões há alguém igual a ti, no mesmo barco – para sermos
precisos, no mesmo “vaporetto”. Direcção Piazzale Roma ou Lido. Não importa.
Dessa marca comum nunca nos poderemos
desfazer. Queremos resguardá-la da intempérie, protegê-la com toda a
força do ser. E saber que, por mais que o tempo passe, ainda nos lembramos como
se diz uma mesma palavra em várias linguas. E quem no-la ensinou. Carles, Gesa,
George, Clem, Fabi, Netti, Marko, Simone, Marijana, Giovanni, Dani, Julie,
Beppe, Hel, Mirijam, Marijan, Luka, Smiki, Toma, Piero, Sebastian, Zule, Mimma,
Ikuo, Wolfgang, Cesca, Tzortzis, Thomas, Enrik, Florence, Giusy, Ducio, Juan,
Ernie, Kirsten, Eva, Luisa, Jarkko, Tiina, François, Dorra, Jasna, Oder, Lamia,
Tomaso, ...
Na hora de nova partida e nova
distância – de volta ao ponto inicial da mudança – forçamo-nos a entender. Mas
nunca entendemos. Ainda bem.