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URMUZ

 

Tradução e Nota Biográfica de TANTY UNGUREANU

 

 

NOTA BIOGRÁFICA

Urmuz é o pseudónimo de Demetru Dem. Demetrescu-Buzău, filho de Dimitrie Ionescu-Buzău, físico e cientista. Urmuz nasceu em 17 de Março de 1883 em Curtea de Argeş e passou um ano em Paris (1888) com a família. Acabou a Escola Superior de Bucareste e ingressou na Escola de Medicina, embora já fosse licenciado em Direito. Durante a Primeira Guerra Mundial participou activamente nos confrontos na Moldávia, onde contraiu malária recorrente. Foi Juiz em várias cidades provinciais da Roménia e  empregado público no Supremo Tribunal romeno. Um ano antes do suicídio a tiro de Urmuz, em 23 de Novembro de 1923, num jardim de Bucareste, o poeta Tudor Arghezi, que lhe tinha atribuído o pseudónimo, publicou, do autor, os contos “A alfeça e Stamate” e “Ismail e Turnavitu”, na revista Cugetul românesc.

 

 

A  ALFEÇA (1) E STAMATE

 

Conto em quatro partes

 

 

I

 

            Um apartamento bem arejado, composto por três assoalhadas principais com marquise envidraçada e campainha.

            À frente, a sala de estar sumptuosa, cuja parede do fundo está ocupada por uma estante em carvalho maciço, sempre cuidadosamente embrulhada em lençóis molhados… No meio, uma mesa sem pés, assente em cálculos e probabilidades, suporta um vaso que contém a essência eterna da “coisa em si mesma”, um dente de alho, uma estatueta representando um padre (de Ardeal (2)) com uma sintaxe na mão e… 20 escudos de gorjeta… O resto não tem a mínima importância. Este quarto eternamente mergulhado na escuridão, devem saber, não tem portas, nem janelas e só comunica com o mundo exterior através de um tubo, pelo qual umas vezes sai fumo e é possível ver, durante a noite, os sete hemisférios de Ptolomeu e, durante o dia, dois homens a descerem a macaco e uma fila finita de quiabos ao lado do Auto-Cosmos infinito e inútil…

            A segunda sala, em estilo turco, com uma decoração muito faustosa, representa tudo o que o luxo oriental tem de mais raro e fantástico… Inúmeros tapetes preciosos, centenas de armas antigas, ainda sarapintadas de sangue heróico, revestem as colunas desta sala cujas gigantescas paredes são maquilhadas todas as manhãs, conforme o hábito oriental e, às vezes, são medidas com o compasso, para não diminuirem incontroladamente.

            Daí, por um alçapão no chão, chega-se, pelo lado esquerdo, a uma cave que serve de sala de baile e, pelo lado direito, com a ajuda dum carrinho a manivela, entra-se num cano húmido, cujas extremidades, uma não se sabe onde acaba e a outra, a oposta, dá para um outro quarto mais baixo que tem o chão em barro e no meio do qual, amarrada a uma estaca, se encontra toda a família Stamate…

 

 

II

 

            Este homem digno, gorduroso e de forma quase elíptica, por causa do excessivo nervosismo que desenvolveu como consequência das ocupações que tinha na Câmara municipal, vê-se obrigado a mastigar, quase todo o dia, celulose em estado bruto que depois cospe, esmigalhada e salivosa, na cabeça do seu único filho de três anos, gordo, enfastiado, que se chama Bufty… O rapazinho, graças a uma excessiva piedade filial, finge que nada acontece e arrasta pelo chão uma pequena maca, enquanto a mãe, a esposa rapada e legítima de Stamate, participa na alegria comum, compondo madrigais e assinando-os com o dedo.

            Estas ocupações, bastante cansativas, conseguem, como é de esperar, alegrá-los e, nesta fase, em que atingiram a inconsciência com a audácia, olham os três pelo binóculo, por um buraco do cano, para Nirvana (situada no mesmo bairro, a começar na mercearia da esquina) e atiram-lhe com migalhas de pão ou com hastes de milho. Outras vezes, entram na sala de baile e abrem umas torneiras, aí propositadamente instaladas, até que a água, espalhando-se, lhes chegue aos olhos, altura em que transbordando de alegria, começam a disparar a pistola para o ar.

            Quanto a Stamate, a ocupação que mais o atrai é, durante a noite, tirar fotografias instantâneas aos santos mais velhos das igrejas, para que mais tarde as possa vender a preço reduzido à sua ingénua esposa e, sobretudo, ao filho Bufty que tem fortuna pessoal. Stamate não teria praticado por nada no mundo este negócio proibido, se não lhe tivessem faltado os meios de subsistência, sendo mesmo forçado a ir para a tropa apenas com um ano de idade, para poder, o mais rapidamente possível, vir em auxílio dos seus dois irmãozinhos necessitados que tinham as ancas demasiado largas, razão pela qual tinham sido demitidos do emprego.

 

 

III

 

            Um dia, estava Stamate ocupado com as suas habituais pesquisas filosóficas, quando lhe pareceu que, por pouco, não tinha conseguido agarrar também a outra metade da “coisa em si mesma”; foi aí que lhe chamou a atenção uma voz feminina, uma voz de sereia que ia directamente ao coração e que se ouvia ao longe, perdendo-se como um eco.

            Stamate correu freneticamente até ao tubo de comunicação e, para seu grande espanto, viu, no ar morno e embalsamado da tarde, uma sereia, com voz e gestos tentadores, estender o seu corpo lascivo na areia quente do mar… Stamate lutou arduamente consigo mesmo para não cair em tentação, alugou imediatamente uma nau e lançou-se ao mar, enchendo os ouvidos de cera, como o fazem todos os marinheiros…

            Mas a sereia tornou-se cada vez mais provocadora… Seguiu-o na vastidão das águas com canções e gestos perversos para dar tempo a que uma dúzia de Dríades, Nereidas e Tritões se reunissem nas profundezas e lhe trouxessem numa soberba concha madre-pérola uma inocente e decente alfeça enferrujada.

            Desta maneira, o plano para seduzir o sério e casto filósofo pôde ser considerado um êxito. Teve tempo apenas para se dissimular até ao tubo de comunicação, onde as fadas do mar tinham depositado graciosamente a alfeça mesmo ao lado da sua habitação, para depois, levezinhas, divertidas, brincalhonas e com gritos de alegria, desaparecerem na imensidão das águas.

            Confuso, tresloucado e descomposto, Stamate não foi capaz senão de se render e dirigir-se de carrinho pelo cano… Sem perder completamente o sangue frio, arremessou repetidamente poeira na alfeça e, depois de se ter deliciado com um pouco de sopa de labaça, atirou-se diplomaticamente com o rosto para o chão, ficando em seguida inconsciente durante oito dias inteiros, prazo necessário, pensava ele, para poder entrar na posse do objecto, conforme o procedimento civil.

            Passado este tempo, Stamate retomou as ocupações do dia-a-dia e a posição vertical, sentindo-se totalmente renascido. Nunca, até àquele momento,  tinha conhecido os divinais arrepios do amor. Sentia-se agora melhor, mais tolerante e a transfiguração provocada por esta alfeça, fazia-o ao mesmo tempo alegrar-se, sofrer e chorar como uma criança…

            Limpou-lhe o pó com um trapo e, depois de lhe ter lubrificado os buracos mais importantes com tintura de iodo, pegou nela e, com raminhos de flores e rendas, fixou-a ao lado e em paralelo com o tubo de comunicação e naquele mesmo instante, exausto pela emoção, penetrou-a pela primeira vez como um relâmpago e roubou-lhe um beijo.

            A partir daí, a alfeça tornou-se para Stamate um símbolo. Era o único ser de sexo feminino cujo tubo de comunicação lhe permitia satisfazer tanto as necessidades do amor, como os interesses superiores da ciência. Esquecendo-se totalmente das sagradas obrigações de pai e esposo, Stamate pôs-se todas as noites a cortar com a tesoura as ligações que o tinham atado à estaca e, para poder gozar o seu incomensurável amor, começou a penetrar a alfeça cada vez com mais frequência, atirando-se para ela de um trampolim propositadamente construído e descendo a seguir a pino, com uma rapidez incrível por uma escada móvel de madeira, no fim da qual fazia o resumo das suas observações do exterior.

 

 

IV

 

            As grandes felicidades são sempre de curta duração… Numa noite, quando Stamate ia cumprir o seu dever sentimental, constatou com espanto e desgosto que, por razões ainda obscuras, o orifício da alfeça tinha diminuído tanto, que qualquer comunicação se tornava impossível. Confuso, mas também desconfiado, ficou a espreitar e, na noite seguinte, viu espantado e sem poder acreditar no que via, como Bufty, lá em cima, ofegante, tinha sido autorizado a entrar e passar. Estupefacto, Stamate só arranjou forças de ir atar-se novamente à estaca; mas no dia seguinte tomou uma decisão suprema.

            Primeiramente, abraçou a dedicada esposa e, depois de pintá-la apressadamente, fechou-a num saco impermeável e coseu-o para que assim continuasse intacta a tradição familiar. Em seguida, numa noite fria e escura, pegou na alfeça e em Bufty e, atirando-os para dentro de um eléctrico que vinha a passar por acaso, empurrou-os, com desprezo, para Nirvana. Apesar disso, com o passar do tempo, o sentimento paterno venceu e Stamate, graças aos seus cálculos e combinações químicas, conseguiu tornar possível, pelo poder da ciência, que Bufty ocupasse mais tarde um lugar de subchefe de escritório.

            Quanto a Stamate, o nosso herói, ao investigar o Cosmos pela última vez através do tubo de comunicação, olhou-o com ironia e indulgência.

            Em seguida, subiu para a eternidade no carrinho de manivela, tomou a direcção da extremidade misteriosa do cano e, girando a manivela com uma insistência crescente, corre ainda hoje, doido, diminuindo sempre o seu corpo, a fim de poder penetrar no micro-infinito e desaparecer.

 

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NOTAS

 

            (1) No original, funil, que em Romeno é de género feminino (n.t.).

(2) Ardeal é uma região da Roménia (n.t.).

 

 

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