CINCO POETAS GALEGAS CINCO POETAS GALEGAS        

 

Traduções de LILIA AGUSTÍ RANGEL ANTAS BOTELHO

 

 

Daquelas que cantan as pombas i as frores

todos din que teñen alma de muller.

ROSALÍA DE CASTRO

 

ANA ROMANÍ (Noia, 1962)

 

Belas irmás, subide

ás máis firmes rochas.

EDITH SÖDERGRAN

 

Camiñan descalzas polas rochas,

pantasmas de sal habitan as sombras,

saben que as últimas mareas

esqueceron na praia os restos do naufraxio.

As mulleres recollen cada noite

os tesouros de auga, líquidos e fráxiles,

rebélanse contra a Historia,

constrúen co mar as estatuas

que nunca permanezan.

As mulleres de sal, con argazos de sombras,

xorden das últimas mareas

e tecen tesouros de auga cada noite

contra a Historia.

Elas, que saben que o efémero permanece.

Belas irmãs, subi

às mais firmes rochas.

EDITH SÖDERGRAN

 

Caminham descalças pelas rochas,

fantasmas de sal habitam as sombras,

sabem que as últimas marés

esqueceram na praia os restos do naufrágio.

As mulheres recolhem cada noite

os tesouros de água, líquidos e frágeis,

rebelam-se contra a História,

construem com o mar as estátuas

que nunca permaneçam.

As mulheres de sal, com sargaços de sombras,

surgem das últimas marés

e tecem tesouros de água cada noite

contra a História.

Elas, que sabem que o efémero permanece.

 

 

CHUS PATO (Ourense, 1955)

 

[...]

porque o que busquei na nenez non era o meu reflexo

senón esa alianza dos que sobrevivistes coa derrota

esa alianza na que se centrou toda a nosa traxedia

toda determinación

toda impotencia

 

así: a Poesía

 

o colapso

a desmemoria

 

acoutar o drama

saberse fillos de pais moralmente inadecuados

da súa negativa a dicir

da súa perturbación

da súa orixe

 

e pois que non se rompeu o espello

senón que nos foi dado roto de antemao

e logo esgazou de novo en nós

nós: aqueles que tivemos que recobrar o mar

 

porque todas as pontes foran rotas

 

nos vasos

nos elixires

nos soños

 

na memoria

 

a historia que narran os papiros de Orfeo

a historia dunha identidade imposíbel

 

un novo Hades

propicio

 

se algún día un deus pousou a súa mao na nosa boca

 

a claridade desa luz

a escrita.

[...]

porque o que procurei na infância não era o meu reflexo

mas essa aliança dos que sobrevivestes com a derrota

essa aliança em que se centrou toda a nossa tragédia

toda a determinação

toda a impotência

 

assim: a Poesia

 

o colapso

a desmemória

 

confinar o drama

saber-se filho de pais moralmente inadequados

da sua recusa em falar

da sua perturbação

da sua origem

 

e posto que não se quebrou o espelho

antes nos foi dado quebrado de antemão

e depois fendeu-se de novo em nós

nós: os que tivemos de recuperar o mar

 

porque todas as pontes foram quebradas

 

nos copos

nos elixires

nos sonhos

 

na memória

 

a história que narram os papiros de Orfeu

a história de uma identidade impossível

 

um novo Hades

propício

 

se algum dia um deus pousou a sua mão na nossa boca

 

a claridade dessa luz

a escrita.

 

 

EMMA COUCEIRO (Lugo, 1977)

 

Por ser palabra e só palabra

antes de soterrar e afundir

a lingua e as entrañas

com esse ademán de

 

só unha.

          

Para encher as horas

e desentrañar.

Porque son eu desmemoriando a voz,

caendo por min sen sentilo

mentres

caio.

Porque non sei esta autodestrucción na pel máis alá

de só unha.

 

Só unha

e aínda non sei cántos poemas

 

cántos.

 

Por ser palavra e só palavra

antes de soterrar e afundar

a língua e as entranhas

com esse gesto de

 

só uma.

 

Para encher as horas

e desentranhar.

Porque sou eu a desmemoriar a voz,

a cair por mim sem o sentir

enquanto

caio.

Porque não sei esta auto-destruição na pele para além

de só uma.

 

Só uma

e ainda não sei quantos poemas

 

quantos.

 

 

 

MARÍA DO CEBREIRO (Santiago de Compostela, 1976)

 

A memoria é o espacio da reapropiación.

Vivo para contalo. Gardo tódalas fotos

para as que me pediron que sorrira.

Agora me decato de que endexamais prescindín

do trazo, da impiedade.

Porque a caligrafía consiste na ilusión de que non nos torcemos.

 

Nin os cadernos rubio darían ocultado

que o carbón mancha a pel

e que a mina se crava con  frecuencia

no páncreas do inimigo.

Agás no teu. Arrincáronche os ollos e iso faite

inmortal.

 

(entón ela abateuse prostrándose por terra e díxolle:

¿por que atopei benquerencia ós teus ollos

para reparares en min,

sendo como son

unha estranxeira?)

A memória é o espaço da reapropriação.

Vivo para o contar. Guardo todas as fotografias

para as que me pediram que sorrisse.

Agora apercebo-me de que jamais prescindi

do traço, da impiedade.

Porque a caligrafia consiste na ilusão de que não nos entortamos.

 

 

Nem os cadernos rubio poderiam ocultar

que o carvão mancha a pele

e que a mina se crava com frequência

no pâncreas do inimigo.

Excepto no teu. Arrancaram-te os olhos e isso faz-te imortal.

 

 

(então ela pôs-se a seus pés prostrando-se na terra e disse-lhe:

– porque é que encontrei afeição nos teus olhos

para os fixares em mim,

sendo como sou

uma estrangeira?)

 

 

 

OLGA NOVO (Lugo, 1975)

 

indíxena.

balbordo fondo da fonte.

inscrición a toda marxe.

poema das orixes.

eu, remotísima, quíxente coma se foses un adorado

deus,

tiven o teu son metido nunha cuncha

e logo trateite coma o fósil dunha planta delicada.

os primeiros ritos levaron o teu nome

e graveite a lume na pel da barriga dos bisontes.

e ti non eras máis que a lei da selva:

morderás com paixón toda a carne que comas

e desexarás morrer a mans da fera máis tenra.

 

indígena.

rumor profundo da fonte.

Inscrição por toda a margem.

poema das origens.

eu, remotíssima, amei-te como se fosses um adorado deus,

tive o teu som metido numa concha

e depois tratei-te como o fóssil de uma planta delicada.

os primeiros ritos levaram o teu nome

e gravei-te com lume na pele da barriga dos bisontes.

e tu não eras mais do que a lei da selva:

morderás com paixão toda a carne que comeres

e desejarás morrer às mãos da fera mais terna.

 

 

           

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