OUTRA VEZ OUTRA VEZ

 

RAQUEL SOFIA MATOS

 

 

Chamo-me Raquel. Da nossa história pouco mais restou que este nome.

Voltei à cidade. Estive muito tempo ausente, fui para o norte, à procura, pensava então, da gente silenciosa que não sei bem quem prometeu para lá. Hoje compreendo melhor que aquilo que me moveu não foi nunca uma procura e que à saudade como ao esquecimento convém menos calar do que dizer, duplamente. Fui encontrar pessoas que aprenderam um número muito reduzido de frases, que essas frases combinadas num número pouco maior eram tudo o que precisavam dizer-se e que, dispostas de forma adequada, repetidas regularmente, se libertavam e os libertavam de todos os enganos, aproximando-os e assegurando-lhes uma vida longa e descansada. Receberam-me junto deles e durante um longo e improvável convívio participei da sua confiança, num abandono insuspeito ao abrigo das palavras conhecidas. Mas um dia lembrei-me... e parei a música. Assustada, surpreendi-me a misturar naquela a nossa língua, a guardar em segredo nomes que sozinha, demoradamente, convertia em nossos e que devolvia assim, deseducados... Permanecer ali pareceu-me uma espécie de traição numa terra onde ninguém sabe o que isso seja. Lembrei-me agradecida e voltei à cidade.

A casa estava de acordo com o que tinha determinado, limpa, arejada, sem mais objectos do que os necessários ao conforto de alguém que inesperadamente precisasse de pernoitar por lá. Não foi esse o motivo do meu despojamento mas fiquei contente por saber que, de facto, chegou a acontecer, mesmo duas vezes. Fui guardando ao longo desta minha vida, muito poucas coisas, conservo de importante apenas aquilo que possa trazer sempre junto ao corpo e, de resto, aquilo que pelo uso tende a se degradar e a se substituir. Os objectos, de tudo os menos dotados para dizer o que quer que seja sobre nós, tive-os sempre pelas nossas maiores testemunhas, capazes de nos reconhecer pelo toque, pelo sal das mãos, e de romperem de um momento para o outro, furiosos ou nostálgicos, a contar as suas memórias. Foi para evitar o coro, assim do tipo grego, que antes de viajar espalhei os nossos, tanto os que fomos comprando juntos como os que ele trouxe da casa da mãe, o mais que pude, uns leiloados, outros ironicamente oferecidos a conhecidos, uns ainda destinados às mais variadas instituições de caridade mundo fora, de modo que, se ousarem, cada um a dar de si para seu lado, alguns com grandes barreiras linguísticas, facilmente seriam desconsiderados ou quanto muito figurariam apenas como mais algumas vozes a juntar às várias que parecem ter alguma opinião a respeito do que foi a nossa vida juntos. Num cenário destes, antes de ter recomeçado a personalizar o espaço, não foi difícil notar a presença de três coisas que nunca me pertenceram: dois livros e um pequeno cofre em madrepérola, ou antes, duas magníficas conchas unidas por um pequeno fecho de prata. A rapariga que contratei para, semanalmente, me abrir as janelas e me regar as plantas (nada temais! essas criaturas românticas são absolutamente fiéis, nota-se pela sua fragilidade e pelas vezes que se deixam morrer) e que agora já é mãe de filhos  contou-me, despachada que o senhor como a senhora tinha dito, tinha ligado a dar ordem, e que os dois que vieram tinham um ar muito distinto, que não eram nenhuns rapazes, mas ainda assim pedira à vizinha do último andar para deitar um olho, que de resto ambos tinham ficado apenas por uma noite mas que cada um deles se tinha esquecido de um livro em cima da mesa; consegui uma descrição mais detalhada das duas personagens para perceber que provavelmente não conheceria nenhum dos dois, e por fim que estas visitas se tinham dado já há uns bons anos e que ninguém, desde aí, se tinha dado por achado, então que não devia ser nada importante. Não sei quem mede a importância dos livros, receio que quem o faz lhe possa dar razão, mas foram eles o motivo destas minhas palavras.

O título de um deles é “Partes de África” e ganhou honras de primeiro documento alguma vez escrito sobre a minha pessoa. Digo-o agora a rir, distanciada dele e novamente de mim, mas, como devem compreender, reconhecer a meio de um livro um episódio, mesmo remoto, do meu passado foi um momento de natural espanto e pelo que já sabeis por mim, de enorme desconforto. O caso é contado, com grande rigor narrativo, em todas as suas consequências visíveis, por um garoto de uns quinze anos, que estava lá, que eu recordo apenas como uma presença e uma das minhas primeiras partilhas, mas que estava sem dúvida lá. Lembrou-se bem do meu nome, do nome pelo qual era chamado, em Bissau, o então meu marido, da diferença de idades que nos separava, que voltávamos de Munique, e do que se soube me aconteceu um dia - «um homem não identificado fora visto a sair ao lusco-fusco pelas traseiras da casa da Raquel numa ocasião em que o Dr. Proença tinha ido às plantas do interior». Seguem-se coisas que desconheço mas que são coerentes, - «Organizaram-se escutas, subornaram-se criados...» - e acaba tudo com a minha ida para Lisboa, que eu própria não sei dizer se foi voluntária, mas que ele diz que não, como acredito, e ele confirma que assim se tenha comentado depois de eu partir, aparentemente porque me mantive reservada  (característica que somente o meu pequeno narrador notou ser habitual), não revelando publicamente a identidade da pessoa em questão. O meu marido nunca chegou a fazer-me directamente essa pergunta que teria sido importante para ele porque o único amor da minha vida, aquele de quem ainda vos falo, conheci-o eu nesse avião para Lisboa. Quanto à minha imagem ... - «incorpórea» - íntegra - «calma» - determinada - «improvável» - surpreendente!, raramente fiz uso desse espelho, que não leva muita gente por detrás, mas este meu amiguinho, percebi ao ler o livro até ao fim, parece caber em toda a parte. Se o apanhei por vezes a coincidir consigo mesmo, foi a fazer caretas deste lado para se poder rir delas lá do outro. Riam também. É que a minha história não acaba sem que se duvide dela, ou de mim. Último capítulo - «já nada nos garante [...] que a rarefeita Raquel não seria uma reimaginada jovem senhora [...] meticulosamente fodelhona com todo o funcionalismo e eu, adolescente, a rondar, cheio de inveja». E é assim.

Não sei bem qual é o espaço das palavras mas, a menos que caiba um homem numa só, ele não figura nesta história. Tenho pena, os dois haviam de se entender, de se desentender... companheiros de escapismo. Imagino, à pergunta (a nossa senha) “De que cor é o cavalo branco do Napoleão?” o do livro “Faz-se o que se pode...só com uma mão!”. Amigos com certeza.

No segundo livro o caso complica-se. Aí, aparentemente, entramos os dois, mas no que me toca não é fácil entrar em pormenores. É um romance e chegou-me sem capa, ou melhor, enigmaticamente encadernado numa espécie de couro polido, lustroso e negro, sem uma única referência, data ou autor. Lá por dentro passa-se tudo em mil oitocentos e tal, ou seja, o disfarce continua: os homens usam cartola, grandes bigodes e alguns pó de arroz; as mulheres dão grandes festas para esses homens; e as casas são adaptadas às duas coisas: têm muitos quartos e muitos espelhos. Ainda assim não foi difícil perceber que se falava de nós. Estamos em Lisboa, o meu marido teria acabado de chegar do continente africano para se instalar de novo na casa onde vivia, entretanto sozinha, reclamando o seu estado civil. O meu nome é dito sem nenhum despudor e apareço, portanto, mulher casada e sempre adúltera. Isto não me espantaria se viesse de alguém que não conhecesse bem a nossa história, mas não é o caso, a ele conheceu-o de perto o autor desta farsa. É inquestionável, o seu comportamento público é contado com requintes de uma amizade de infância, capaz até de reproduzir, com precisão, o seu arquivo de pequenos insultos para os momentos de indignação, que não é coisa pouca (só me pergunto que nome reservaria ele para alguém que o vai chamar - «Ega»!). A questão é que goste eu ou não da forma como foi tratada a nossa vida pessoal, não posso negar que o dono dessas linhas teve a sensibilidade e o humor necessários para gostar e fazer gostar dum homem - «retorcido». De modo que se não me demoro em detalhes é por saber o poder impressivo duma prosa que me transportou, em tempos improváveis, ao mundo dos ciúmes. Quanto ao de entre portas, desculpa-se-lhe alguma ignorância. Há uma - «Vila Balzac» -, excessiva e - «ardente» -, carregada de história, mas que da nossa conta somente, a meio do jardim, com - «uma estatueta de Napoleão I, de pé, equilibrado sobre o orbe terrestre » -, tolhida de frio e ainda assim «como alvo de injúrias». Injúrias ali?

(“... De que cor...? ...no cântico dos cânticos... falamos... De que cor?.. como seixos... De que cor é o cavalo?... dentro de água... repete, De que cor é...? ...repete, Raquel...”)

Mas encaro estes desvios como naturais. Desconhecer-me foi a forma possível de o compreender a ele. Antes assim...

            Escapam-me nas palavras as intenções, de quem as diz e de quem as dá a ouvir. Mas na economia estranha da memória nunca se perde, mesmo o que falta é lucro. Por exemplo, fui criada por uma senhora muito doce que tudo o que me contou de mim foi que fazia lembrar a minha mãe, uma mulher muito bonita, filha de uma grande família. Depois, há os dois livros que tenho na minha frente onde era uma vez um grande amor, um homem e uma mulher, ela chamava-se Raquel e - «era judia».

 

 

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