LIÇÃO N.º 1: ELOGIO E SIMPLIFICAÇÃO DO COSMOS LIÇÃO N.º 1: ELOGIO E SIMPLIFICAÇÃO DO COSMOS

ELSA PEREIRA
Nos Himalaias do
Nepal e do Tibete, encontra-se inscrito nas rochas um salmo budista: Om mani padme hum. Traduzido
literalmente, o salmo quer dizer: Eia! A
jóia no coração do lótus – o que, interpretado livremente, poderá
significar: a verdade no mundo de
revelação dos fenómenos, ou tudo muda
e tudo se transforma.
Primeira
aula da cadeira propedêutica de Introdução aos Estudos Literários. Apesar do
folclore da praxe académica, é impossível ignorar o desconforto de quem pisa um
terreno ainda demasiadamente incerto e duvidoso.
A
entrada na sala de aula é mera formalidade. Dia de apresentações; das pessoas e
dos programas. Para falar a verdade, não me lembro dessa parte, mas sei de cor
o sorriso da professora. Sei de cor: de coração, porque, à saída, é com esse
mesmo sorriso que ela nos entrega, entre olhares de cumplicidade, aquele que
será o meu companheiro de jornada… um pequeno e singelo feijão.
Não sei
que explicações nos dão os cientistas, para o vertiginoso ciclo da vida. Nem
quero saber – isso roubaria a beleza aos segredos das divindades, que assim
deixariam de ser segredos e divinos. Só sei que, observando este simples
feijão, junto ao peitoril da janela, mais do que uma semente poisada sobre uma
bola de algodão, o que eu vejo é a própria vida que se faz.
A
partir de aí, é a mutação constante e inefável de um filho da Natureza que se
faz mãe. É um feijão que deixa de ser fruto, para ser semente de uma raiz, de
um caule, de uma folha… na vertigem das horas, à velocidade da seiva, pelo
silêncio ensurdecedor do Cosmos.
Fixo
então os olhos nessa vida que se renova e tento encontrar a sua verdade íntima.
É
surpreendente como a Terra é, ela mesma, a materialização de um fundo imutável,
contra o qual continuamente encenamos o drama do movimento, do crescimento e da
vida. Olho a minha planta e consigo
ver, em cada elemento que brota do nada (e, ao mesmo tempo, do tudo), o meu
próprio crescimento, a minha própria aventura. Vejo-a levantar-se, ao ritmo que
os contornos de uma etapa da minha vida se vão tornando mais nítidos e sinto
que essa caloira é também uma planta, espreitando timidamente para um universo
aterradoramente novo.
O feijão deixa de ser pequeno e vai
crescendo e mudando e criando folhas e frutos… Estou no início de um novo
ciclo, que, como o do feijão, será curto, mas, ao fechar-se, fará também parte
integrante do manto que enriquece o solo de outros projectos, ou originará uma
fogueira, que, elevando-se no céu, exalará uma penetrante fragrância.
«A vida é um bem de
que não sabes bem o que é. Ela está em ti, como tu estás nela. […]
E a vida recuperará
através de ti a maravilha de ser vida nos que à vida hão-de vir depois de ti.
Aproveita a vida para
o pensares, porque depois já o não poderás fazer.»
VERGÍLIO
FERREIRA, Pensar