DO INTENSO E DO SUSPENSO DO INTENSO E DO
SUSPENSO
CLÁUDIA COIMBRA
«Words have been used too often, touched and turned,
and left
exposed to the dust of the street.»
VIRGINIA WOOLF, Jacob’s
Room
I
Não
há lugar onde as palavras perdidas se encontrem. Há o mundo e a lua. E camas
com lençóis imaculadamente brancos onde deitar nossas vidas. Tudo o mais é
silêncio. O vento e a rua. O mar profundo nos olhos de alguém. E o mergulho,
lento e frio.
“Falo-vos
de contemplação...” Pela primeira vez entrava numa aula de Teoria da
Literatura, numa universidade estrangeira. E logo nessa aula, lembro-me,
aprendi a estabelecer um elo fortíssimo entre três nomes abstractos, muito
complexos. Mais tarde, certos raciocínios daquele docente com ar de dandy
pesariam no trabalho escrito que entregaria para leitura e aprovação. Mais
tarde, ouviria da sua boca rígida a sentença: “Você, minha cara, está
encharcada de emoção.” E não saberia o que responder.
Ao descer as escadas luminosas do palazzo Mocenigo, confusamente apressada, continuava a crer que tudo fazia sentido. Que não mudaria uma linha que fosse, nem que Barthes ou Todorov e o seu séquito de formalistas russos mo sugerissem! Assim pensava porque o tinha encontrado. E porque desde então, cegara completamente, baseando toda a acção escrita numa só imagem: aquela que fizera de tudo início. Refugiada no egoísmo poético, deliciosamente ridículo, inerente a um artista, era completamente estranha a chamamentos sóbrios, ou talvez desiludidos. Assim pensava porque era a vez primeira em que tudo encaixava na perfeição. Ali estavam: a Beleza ao longe; a Contemplação em plano mais aproximado e finalmente a Literatura. Em todas estava ele. Ser ambíguo, de quem nada sabia.
O
que nunca se esquece não chega a ser útil ou funcional; é frequentemente um
detalhe ornamentativo. É esse detalhe que provoca o olhar, a obsessão inicial,
absurdamente tenebrosa. É esse detalhe que permanece na memória por mais que a
história oficial da vida não se debruce sobre a grande revolução instada pelo
pequeno brilho, devorador, magnetizante, do diferente e do único. Tumulto
silencioso.
As
palavras eram desnecessárias. As palavras não existiam, não eram vida para
alguém que vive delas, tantas e tantas vezes. Era a primeira vez, naquele
instante de sufoco. E cedo me apercebi que a beleza sobre a qual dissertava o
professor Guidorizzi todas as semanas, a presença do belo tal qual a literatura
o apresenta (ou almeja representar) não podia estar noutro lugar. Aquela rua
obscura, ângulo de água da cidade, era o derradeiro idílio terrestre, onde toda
a inspiração se podia beber. “Beauty glowing, suddenly
expressive, withdrawn the moment after.” (ainda Woolf).
Julgava
perdê-lo onde quer que fosse; assim como julgava encontrá-lo onde quer que os
meus passos me conduzissem, exaustos da antecipação da presença. Receosos. Ali
estamos nós, sem pressas. Pensamos que o infinito vem descrito na curva de um
ombro, na cor escura de um casaco, na intensidade alarmante dos olhares que se
cruzam. Adivinhamos tudo, mesmo o desencanto.
[Sigo-te
nos mistérios, nesse enigma que és tu. E julgo que nada pode ser maior do que
isto, nada disto pode ser descrito.]
Transportava
no bolso ao fim da noite a desilusão, a frase que teria dito que diria para não
dizer no segundo que seguiria a suave violência do choque. O fascínio que
exercia roubava ao mundo real, quase aniquilava, abandonava e seguia viagem.
Terá sido sempre assim. Há quem consiga desarmar, despir, diminuir defesas e
aumentar fraquezas, sem muito esforço (como se não fosse mortal). Sentia-me nua
porque o descobria assim, poderoso e igualmente inseguro, olhando-me – o rosto
cheio de perguntas e segredos. Mas nenhuma palavra, como no primeiro minuto.
Havia
depois um nome. O seu. Cada sílaba adquirida por via legal e armazenada na
minha base de dados mental. Era, como qualquer outro vocábulo, algo capaz de
explicar o universo. Ou estes lábios que sabiam não ter muito para dizer. Era
palavra de desejo na chuva, gosto molhado de ar respirado. Era, no fundo,
palavra interdita, visão maldita que abençoa. Perfil enquadrado. Era voz, corpo
e um certo terror de estar tão perto.
O
processo foi simples. Tatuei a minha pele com a cor que me invadia o sono: cor
que era sonho. E no perímetro protector de cada ausência, dois olhos eram a
minha vertigem; na sombra, o refúgio mais secreto da minha existência. E pensei
que isso bastasse. Ignorante! Venerava
o silêncio, cada movimento, por vezes imaginado, porque já era tarde, porque
ele já não estava ali, porque o concerto tinha acabado, porque ele também tinha
um mundo muito seu onde se recolher. Sem avisar ninguém.
O
mais estranho é que me via nele, por mais fantasma que fosse. E nunca um meu
reflexo me pareceu tão deslumbrante, tão mágico. Daí a entrega, o abandono.
“Pertenço-te até ao fim do mar...” ecoa uma canção dos Madredeus. Onde quer que
estejamos.
II
—
A sério, não há problema. Vem... se quiseres.
Eu
segui-o, no rasto da noite. O convite tinha sido providencial, tendo em conta
que esquecera as chaves do collegio no quarto e que passava das 5 da
manhã. A ideia não deixava de ser assustadora mas não julgava estar mais
protegida noutro lugar senão naqueles desconhecidos metros quadrados a que ele
pudesse chamar casa, para lá do velho Ghetto.
[Quando
os teus olhos se fecharam, encostei-me aos desenhos na parede como se esperasse
transformar-me num deles, numa tua obra de arte. Também eu, ali, te tinha
inventado, imaginando que não haveria mais ninguém. Mais nada. Nem antes nem
depois. Ou para além de nós.]
O
amanhã que se seguiu nascera para ser diferente. Então fui absolutamente feliz.
Estupidamente comovida. Ingénua como sempre. Agora não sei bem porquê, aprendi
a relativizar melhor os acontecimentos. Mas no momento em que virei costas
àquele espaço, apesar do gradual afastamento, todas as imagens se reproduziram
na minha mente, a uma velocidade estonteante, de droga, em flash de
fotografia. Uma prancha de snowboard a um canto, o instável monte de CDs
numa prateleira, um enorme caderno de esboços. Enfim as paredes, pulsando de
criação, na penumbra. Tocadas pela madrugada, através das portadas verdes das
janelas. Pinceladas de Cézanne, repentinas. E aquela cama, que era sua, que não
me deixara dormir, com medo que descobríssemos que tudo aquilo era sonho. Nunca
me sentira tão dentro de alguém, tão presa à ternura. E à ilusão que me
perseguia – ou que eu fazia o possível e o impossível por perseguir. Era a
primeira vez.
Naquela
manhã não o acordei. Desequilibraria certamente o equilíbrio da escultura. Vim
embora, sorrindo a cada gesto cauteloso, delicado, para não despertar sentidos
adormecidos (onde tinha deixado o casaco?). Sorrindo e ainda tremendo, a cada
último olhar a um vulto estendido (E onde se metera o Randazzo? Ia jurar que
fazia parte do pequeno grupo que acampara ali horas antes...!) Vim embora,
retomando o fio das sensações: sorria, portanto; tremia. E pensava no quanto
custa verbalizar as malditas emoções a quem no-las cria.
Ficamos sempre por dentro da experiência, não queremos
sair, vir à tona. Como loucos, poetas em delírio, hipnotizados em fuga,
conscientes de que algo inevitavelmente se perde, sorrimos durante todo o
caminho de regresso às palavras. Ao collegio, onde uma qualquer amiga,
expectante, nos enche de perguntas. A começar por...
—
Onde é que estiveste até agora?
[Dois
anos depois sei que existirá outra estrada onde – talvez inesperadamente –
reconheça teu rosto. ]