AQUILO QUE CAI AO CHÃO É NOSSO AQUILO QUE CAI AO CHÃO É NOSSO

ENTREVISTA A REGINA GUIMARÃES

 

JOÃO PEDRO DA COSTA

 

 

 

 

 

 

 

 

Apetece dizer de Regina Guimarães aquilo que Gertrude Stein disse um dia de Paris: «Não é tanto o que Paris dá, é o que Paris não tira». Poeta, tradutora, dramaturga, letrista e cineasta, não é fácil encontrar nos últimos vinte anos em Portugal alguém com uma produção artística tão vasta e tão diversificada e com uma opção tão inequívoca pela marginalidade: a Regina sempre editou os seus livros em pequenas editoras; utiliza preferencialmente nos seus filmes o suporte vídeo e o formato de curta ou média-metragem; escreve peças para espaços pouco convencionais e letras para um dos segredos mais bem guardados da música portuguesa contemporânea: alguém já ouviu falar do Alexandre Soares?

Claro que há excepções que confirmam a alucinação desta regra. A mais loquaz foi talvez a sua presença ao lado de escritoras como Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner, Teolinda Gersão ou Maria Velho da Costa, no ciclo Vozes e Olhares no feminino promovido pela Porto 2001. Foi então possível verificar como o espanto e a gratidão nela se alojaram, desde o convite até ao momento em que o auditório da Biblioteca Almeida Garrett se encheu para a ouvir.

Para nós, contudo, a Regina foi sobretudo um membro destacado desta equipe de elite que são os leitores de Francês da FLUP (seria uma injustiça não referirmos os outros, quando a língua francesa é, sem dúvida, das coisas mais bem ensinadas nesta casa). No ano passado, foi com um certo espanto e incredulidade que alguns ouviram falar do seu pedido de aposentação. Os menos distraídos sorriram com aquilo que, afinal, poderia ser visto como apenas mais um gesto a confirmar a coerência de um trajecto que parece desejar a invisibilidade.

Regina Guimarães aposentou-se, mas não se atreveu a privar-nos da sua companhia. Daí a imediata amabilidade ao conceder-nos um pouco do seu tempo para esta entrevista: não é tanto o que a Regina dá, é o que a ela não tira.

 

 

 

 

 

 

Segundo julgo saber, reformaste-te o ano passado. Contudo, continuo a ver-te todas as semanas na Faculdade. O que fazes por cá?

Não gosto de cortes bruscos. Preciso de tempo para fazer o luto de tudo quanto vou perdendo. Isto pode parecer absurdo, tanto mais que o leitorado era o meu ganha-pão... Mas acredito que todos os gestos da vida nos constroem. Os gestos do trabalho socialmente reconhecido e remunerado fazem parte da nossa pessoa, da nossa pessoa múltipla, claro está. Portanto, decidi que continuaria a frequentar o espaço onde fui, durante dezoito anos, docente. Faço uma permanência, às quintas-feiras, que também são dia do cinÉmotion [ciclo de cinema francês organizado anualmente pela Secção de Estudos Franceses do DEPER]. Recebo estudantes que têm vontade de participar em projectos extra-curriculares e outros que desejam tão-só conversar em Francês.

 

E essa iniciativa tem tido muito sucesso?

O sucesso é relativo. Mas todos os projectos um pouco marginais – um espaço de «conversa e conspiração», por exemplo – precisam de tempo para se tornarem conhecidos e reconhecidos como úteis. Os utentes do RENDEZ-VOUS vêm, digamos, à experiência, e as pessoas que os recebem (nomeadamente eu própria) precisam de imaginar e pôr em prática formas, não necessariamente sabidas ou convencionais, de aprendizagem pelo convívio.  

 

E que balanço é que fazes desses dezoito anos na FLUP?

Aprendi muitas coisas. Espero ter ensinado algumas.

 

O quê, por exemplo?

A necessidade – moral - de nos confrontarmos com os textos sem prévio recurso à mediação do discurso crítico. Os escritores não escrevem para os universitários ou, pelo menos, não deviam escrever. E os universitários não devem perder isso de vista, sob pena de matarem, no ovo, o desejo de ler que, no sentido lato, talvez seja universal.

 

O Francês, como sabes, está em crise. A sua condição de terceira língua mais estudada em Portugal começa, inclusive, a estar em risco com o crescimento da importância do Espanhol. Achas que a tendência é irreversível?

É perfeitamente natural que a língua, a cultura e a literatura do país vizinho (e da maior parte dos países da América dita latina) se tornem (enfim!) objecto de genuíno interesse. Mas se o Espanhol é nosso vizinho o Francês não o é menos...  Isto de aprendizagem das línguas não deve ser visto como uma competição. O Francês será tanto mais ensinado/aprendido quanto soubermos valorizá-lo do ponto de vista simbólico. O verdadeiro problema está, penso eu, na capitulação perante a hegemonia do Inglês-de-aeroporto (não estou a falar da língua de Shakespeare, Joyce, Whitman, Faulkner...).

 

Como é que te sentiste, nos últimos anos, a dar aulas a pessoas que sabias que iam direitinhas para o desemprego?

Senti que tinha a obrigação de lhes dizer que iriam ser obrigadas a construir o seu próprio instrumento de trabalho, caso não quisessem refugiar-se numa negra amargura. Falei-lhes como teria falado aos meus próprios filhos. E acho que nós devemos a nossa verdade aos nossos filhos e aos que poderiam sê-lo. Perdoem-me esta veia maternal... que não é uma veia maternalista.

 

Tens-te dado bem com esta nova vida de «professora reformada»?

Farto-me de trabalhar noutros projectos. Mas convém sublinhar que o trabalho nunca me impediu de trabalhar. O trabalho é uma droga. Quanto mais se trabalha, mais se consegue ter vontade de trabalhar. O trabalho não liberta, como pretendia o outro assassino. O trabalho liberta-nos do trabalho.

 

Para além de Leitora de Francês na FLUP, as pessoas conhecem-te sobretudo (ou unicamente) como poetisa, tradutora e cineasta. O facto de teres optado pela reforma tem alguma coisa a ver com uma intensificação da tua actividade artística ou sempre conseguiste conjugar as duas actividades sem problema?

Está respondido. Posso acrescentar que todas as coisas se contaminam. E isso é bom. Embora tenha abandonado a «carreira» [mima as aspas com as mãos] docente, continuo a aceitar trabalho de formação...

 

Tem piada o facto de usares o nome Regina Abramovici como docente da FLUP e Regina Guimarães na tua actividade artística. Esta heteronímia significa que há mesmo uma separação nítida entre estas duas encarnações? Com a reforma, a Regina Abramovici despareceu?

Eu sou casada com o Serge Abramovici, adoptei o nome do meu marido e companheiro de muitos anos. Nunca tentei sequer discutir o meu nome «oficial», nem com a Faculdade, nem com o fisco. Guimarães é o nome do meu pai, que por ele me foi dado. Os estudantes chamavam-me Madame. Os filhos chamam-me Mãe. O Serge chama-me Corbe. Isto de nomes, quantos mais melhor. Romper com a unicidade do ser é um projecto de vida, não achas?

 

Acho e, de resto, o Vergílio Ferreira costumava dizer que nós somos muitos e que só no caso dos maluquinhos é que todos eles coincidem na mesma pessoa ao mesmo tempo. Voltando um pouco atrás, é óbvio, pelos menos para quem conhece um pouco a tua obra, que há uma contaminação entre a tua actividade como poetisa e letrista (dos Três Tristes Tigres) e a de cineasta. Onde e como é que sentiste (se é que o sentiste de facto) que a Regina-Abramovici-Professora influenciou a tua actividade artística e vice-versa?

Aquilo que cai ao chão é nosso [refrão de «Visita de Estudo», tema do último álbum de originais dos 3TT, «Comum» (EMI, 1998)].

 

Por que é exerceste sempre a tua actividade artística fora da FLUP? (Os 3TT nunca aqui tocaram; as tuas peças e filmes nunca ou raramente foram exibidos aqui; que eu saiba os teus livros nunca foram lançados cá...)

Não podia, como é óbvio, utilizar o meu (pequeno) ascendente como professora, numa casa com milhares de almas, para promover (palavra feia) os resultados dos trabalhos de outras vidas.

 

O Porto é a tua cidade? É que a certa altura deixaste a impressão de que estavas a fugir para Braga...

Em Braga tenho amigos a quem estou profundamente ligada. Foi para a Companhia de Teatro de Braga que fiz algumas das traduções que mais mexeram comigo (vários textos de Claudel e de Pinget, por exemplo). Mas nunca me esquecerei de que conheci a obra de Pinget através duma colega da Faculdade, que ficou minha amiga, a Véronique Dahlet. A vida não tem compartimentos.

Mas é certo que o Porto é a minha cidade, o Porto burguês e obscuramente canalha, com seus dias de veludo e outros a roerem-me os ossos.

 

Como é que explicas que, tendo tu tanta experiência e obra feita na área de tradução Português / Francês / Português, a FLUP nunca tenha aproveitado esse teu potencial para te pôr a dar aulas e formação nessa área?

Quando a Tradução fez a sua entrada nos planos curriculares da FLUP, e eu mostrei interesse em leccionar nessa área, deram-me a entender que não tinha qualificações suficientes para tanto. Tant pis!

Acrescente-se que, em relação ao ensino da Tradução, defendo algumas ideias que não parecem ser consensuais, nomeadamente a ideia de que os estudantes dessa especialidade deveriam construir, ao longo da sua aprendizagem, um portfolio que lhes servisse de cartão de visita. Esse portfolio compreenderia, por exemplo, a legendagem de um filme e traduções de textos de diferentes géneros: uma novela, uma peça de teatro, um livro de poemas, um ensaio, um glossário, etc.

A FLUP deveria pugnar por uma formação séria na área da tradução literária – nisso residiria a sua diferença.  

 

Não achas que a FLUP é uma casa triste?

A FLUP é uma casa na grande casa do mundo. Olhamos para o mundo com uma tristeza lancinante. Mas precisamos de resgatar os sentidos dos nossos gestos, pequenos ou grandes. Aqui também, se aqui for uma das nossas casas. 

 

Tens saudades de alguma coisa da FLUP? Ou a reforma foi mesmo um alívio?

Tenho saudades dos estudantes. Diferentes todos os anos. Uma massa feita de pessoas que nos obriga a um processo de estranhamento. Quanto à reforma, lugar aos novos. Com tanta gente talentosa à procura dum lugar onde possa agir, não posso achar que isto é triste. 

 

Sentes-te uma outsider? Como caracterizarias a tua geração? Há pontos de contacto entre a tua geração e as mais novas?

Digamos que desconfio do sunny side. A minha geração é, infelizmente, responsável pela morte dos ideais revolucionários. Pergunto-me amiúde onde estão todos aqueles porta-estandartes do 25 de Abril (cuja suprema excitação tanto me agastou), todos aqueles que juraram a pés juntos fidelidade ao princípio da mudança? As novas gerações, só aparentemente mudas, pedem-nos contas em relação a todas as cobardias e inconsequências que têm constituído a nossa «imagem de marca».     

 

O teu último projecto como cineasta, em parceria com o Serge, foi o documentário Ailleurs si j’y suis e que tem a particularidade de se debruçar sobre uma realidade ligada à FLUP. Queres falar-nos um pouco sobre isso?

Esse projecto não nasceu de um puro capricho nosso. Inscreve-se num gesto mais largo a que chamámos ÉCHANGES. A iniciativa do todo partiu da Ana Paula Coutinho. E muito bem. Não basta falarmos de transversalidade e de alargamento de horizontes. Não basta dizermos que os estudantes devem ser encorajados a objectivar a sua subjectividade e que o pensamento projectado na acção é a fatia mais importante do nosso estar no mundo. Os trabalhos que envolvem a participação dos estudantes enquanto pessoas pensantes e actuantes sempre nos interessaram. O documentário Ailleurs si j’y suis é a prova de que esses trabalhos são possíveis, necessários e urgentes. As estudantes que participaram na sua realização – digo «as» porque só havia um rapaz – tiveram a oportunidade de descobrir outras vertentes da palavra «estudo». Tratava-se de um grupo de pessoas marcadas pela experiência, ora dolorosa, ora exaltante, duma dupla pertença. Perceber que somos infixáveis – porque exilados do paraíso – é o primeiro passo para integrarmos o outro no nosso pensamento e isso permite que a nossa palavra possa ser uma palavra dirigida.

 

Menos feliz terá sido a ideia de passares o filme na Faculdade na mesma hora em que o Porto dava uma lição de futebol ao Manchester. Será que teremos uma nova oportunidade para vê-lo na FLUP?

Espero que sim. Mas é preciso que essa nova projecção faça sentido, já que a FLUP não é propriamente uma casa de espectáculos.

 

Agora, uma pergunta egoísta: quando é que teremos um novo disco dos 3TT (o último de originais já saiu há seis anos)?

Os tigres nunca pararam de trabalhar. Mas fazer discos – isto é: fixar trabalho num determinado suporte com um determinado tipo de distribuição – não pode ser um dado adquirido. A nossa banda arrebanha com dificuldade, que queres tu...?

 

Ouvi dizer que o teu próximo projecto é seres avó. Estás preparada para isso?

Esse projecto está em marcha. A todo o vapor. Nunca ninguém está preparado para nada. Isso é que é belo.