CONCERTO PARA VIOLONCELO NO. 1 EM MI BEMOL MAIOR, OP. 107 (CONTO 04) CONCERTO PARA VIOLONCELO NO. 1 EM MI BEMOL MAIOR, OP. 107 (CONTO 04)

 

MIGUEL RAMALHETE GOMES

           

 

para a Helena

 

I

 

Actualmente é raro ver alguém a fumar tabaco de enrolar. Só o fuma quem não tem dinheiro ou quem gosta mesmo. Eu pertenço última categoria. O tabaco de enrolar tem a vantagem de ser feito com fios de tabaco e não com restos misturados com químicos. Daí demorar mais tempo a apagar e causar queimaduras mais profundas, mais dolorosas e mais difíceis de cicatrizar.

A voz da morta diz: The woman is perfected. Ou, pelo menos, só agora reparei nisso. Está deitada ao meu lado na cama, a cama dela, e não noto nela qualquer movimento, à excepção do inspirar e expirar, lentos e arrastados, dilatando-lhe as omoplatas só um pouco, a compassos quase regulares. Focalização fragmentada. As cores espalham-se, partidas, pelo corpo, consoante o jogo entre a incidência da luz na rua que, pela janela, entra no quarto, e a dispersão ou concentração das sombras. Alterações significativas derivadas da mudança de ângulo. A zona das omoplatas assume, por vezes, contornos de um púrpura violento, mas a descida acentuada que acompanha a coluna, na continuação do dorso espelhado, já ganha colorações de um verde muito escuro. Daí para baixo há uma mescla com o lençol que se intromete, mas, ainda assim, permite ver um traço cor de cinza, o único traço que, ao contrário dos outros, não se quebra em linhas rectas justapostas. O mesmo não se passa com o cabelo que, acompanhando a mudança de plano, se revela assimetricamente delineado, formando uma onda de várias rectas sucessivas e fracturadas. Um dos braços está coberto pela opacidade do corpo, mostrando apenas o ombro, o outro encontra-se semi-submerso sob a almofada. Tudo o resto foge completamente à noção de perspectiva. Passo-lhe a mão pela curva descendente das costas. A mão está fria. O corpo dela afigura-se-me agora liso e curvo, quando a toco, e já não rigidamente quadrático, como há pouco. A mão está fria. A penugem das costas eriça-se e ela acorda. É de madrugada. Mais uma vez, voltei a acordar antes do nascer do sol. Ela pergunta que horas são, eu não respondo e apetece-me atirar o cigarro para o meio dos lençóis, mas não, apago-o no cinzeiro da mesa-de-cabeceira que está ao meu lado e levanto-me para ir lavar a cara. Lavo a cara, olho-me ao espelho e vou fazer café, enquanto ela usa a casa de banho. Ponho a cafeteira no disco do fogão. Na véspera,

 

“Boa noite, senhoras, boa noite, gentis senhoras, boa noite, boa noite.”

“Boa noite.”

“Boa noite.”

“Boa noite.”

E enquanto vou passeando por entre as pessoas que se apinham nos corredores e no átrio, não vejo senão quadros numa exposição, que viram o olhar na minha direcção e me cumprimentam despachadamente, antes de voltarem à fixidez em que se encontravam. A sala e os seus componentes, muitos deles humanos, todos eles ornamentais, estão estilizados, recortados de uma qualquer cena a retratar um serão cultural oitocentista e colados aqui, sem contextualização. Tenho a impressão desagradável de estar a passear no meio de esculturas que me observam. Todos eles adivinham a minha perturbação e as suas causas e, mais do que isso, adivinham o fracasso que se prepara para hoje à noite e a minha total incapacidade para o evitar.

O concerto vai começar com uma composição inédita, seguida de outras peças mais antigas e, também, mais unânimes. Quando entreguei as últimas folhas da pauta ao maestro, na semana anterior, após ter acabado de as compor, ele voltou a queixar-se do atraso e do pouco tempo que ia ter para ensaiar a peça. Depois, olhou para a pauta e fez a mesma cara estranha que lhe notei quando lhe mostrei as primeiras folhas. Em seguida, disse apressadamente que lhe parecia bem e afastou-se. Típico. Um maestro mentiroso, uma orquestra que só faz o que a mandam e uma completa falta de percepção sobre a qualidade e até audibilidade da peça. Ou antes, uma sensação opressiva de desastre iminente.

Não me reconheço nesta peça. É, aliás, a primeira vez que escrevo uma peça desta maneira e, para dizer a verdade, não me sinto muito confortável com este método. Até há algumas semanas atrás, o modo como compunha era sempre o mesmo. Pegava numa pauta, sentava-me ao piano e ia escrevendo à medida que tocava, aos poucos mas com segurança. Escrever música sempre foi para mim um processo lógico, derivado da razão pura. A única coisa que escolhia as notas, os tempos, as dinâmicas era o pensamento. Só assim podia ter a certeza de ser o autor daqueles compassos. Numa lógica comunicacional, eu era o único emissor. A minha intenção nunca foi ser original ou genial, mas sim escrever coisas sobre as quais pudesse dizer com segurança, isto é meu, não foi ditado por uma consciência superior, não me apareceu como que por milagre na cabeça, não é o resultado de um processo de inspiração involuntária fruto de uma mente genial. Nascer-se génio é disparate, um génio aprende a sê-lo. Esta máxima deriva de um postulado lógico: se a arte nascesse de um processo de inspiração ditado por uma qualquer inteligência transcendente, eu já não seria então um emissor, mas sim um canal. Um canal desprovido de opinião, de intervenção na sua arte, um mero mensageiro.

Há três meses atrás, encomendaram-me um concerto para violoncelo, a ser integrado num ciclo de obras minhas, organizado de propósito para a inauguração de uma nova sala de espectáculos. Por pura preguiça e, talvez, auto-indulgência, já não sei, deixei passar quase dois meses sem escrever uma linha. Depois, achei que tinha chegado a altura de realmente me mexer e decidi compor. Acordei de manhã cedo, fiz um café, vesti-me e sentei-me ao piano com a pauta e o lápis à frente. A princípio, foi estranho, achei que ainda devia estar com sono e resolvi fumar um cigarro para acordar. Voltei a sentar-me ao piano e só então dei conta do que se passava. As notas já não soavam como uma linha desligada, passível de ser separada até ao mais ínfimo elemento. Se eu tocava um dó, ouvia imediatamente uma cor, neste caso a vermelha, e a nota apontava logo para uma sucessão de outras notas, cada uma delas com indicações e referências várias. A partir daí, as combinações eram múltiplas, dependendo da ramificação que eu escolhesse. Se eu continuasse para ré, azul, a pauta ganhava traços cubistas, deformando-se à frente dos meus olhos, mas se escolhesse um fá sustenido, bege, já as linhas da pauta se fragmentavam caoticamente, como numa tela pós-expressionista. E logo comigo, que nem gosto nada dos pós-expressionistas.

Larguei as teclas do piano, pousei o lápis e a pauta e saí à rua: amanhã continuo, devo estar mas é parvo. De noite, tive insónia. De manhã, levantei-me, repeti a rotina e toquei mi – amarelo, lembrou-me a esfinge gorda do Sá-Carneiro. Fiquei desconcertado. Nos dias que se seguiram, o processo de associação manteve-se. Não consegui escrever nada. Tinha a sensação de estar a ser constantemente sabotado. O maestro começou a telefonar-me a saber da peça, faltava pouco tempo, a orquestra tem de ensaiar e pelo menos entregue-me algumas folhas para termos qualquer coisa que já possamos tocar. Voltei a sentar-me ao piano. A história repetiu-se mas tentei escrever desse por onde desse. É difícil escrever numa pauta em constante mutação. Escrevi algumas folhas a custo e fui entregá-las. Quando voltei, reparei que o processo alastrava e começava a contaminar outros objectos e sensações. Tudo agora remetia para outras coisas, provocando associações espontâneas que eu era incapaz de reprimir. Mais ainda, as remissões operavam-se em relação a ideias atípicas em mim. Cheguei a casa e continuei a compor. Consciência de que não domino esta técnica aleatória e de que não sou mais um emissor, mas sim um canal, limito-me a transmitir aquilo que me é passado para a mão; angústia; é um cliché, eu sei, mas este si bemol acabou de me remeter para o grito do Munch. Amarelo sujo.

Quando cheguei ao fim, recusei-me a rever a peça, se é que se lhe pode chamar isso. Entreguei o resto e passei uma semana fechado em casa a pensar no desastre que se avizinhava.

 

Agora avanço pelo meio de figuras estáticas com o olhar imobilizado. Aguardam uma fala que as desperte ou então o fim do acto. Ardósia. Entro na sala de concertos e sento-me no meu lugar. Olho em volta: sala cheia, manequins de cera em poses fixas, seguindo à letra as indicações cénicas. Todos os figurantes estão parados e silenciados, excepto aquele que interpreta o narrador. Este mexe-se com desconforto na cadeira, mudando constantemente de posição e tossindo. O pano abre-se, vê-se a orquestra, ouve-se uma batuta a bater na estante onde a pauta está pousada e dá-se início ao concerto.

 

 

II

 

Amanhã sei que vou acordar com um corpo de mulher imóvel ao meu lado. Não vou estar tranquilo. Aos poucos, o corpo começará a recuperar o movimento negado. Eu irei fazer café enquanto ela se levanta. É sinal de que a história vai deixar de ser ditada.

 

 

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