TRÊS POEMAS DE MIQUEL MARTÍ I POL TRÊS POEMAS DE
MIQUEL MARTÍ I POL
FRANCISCO TOPA
Miquel Martí i Pol
nasceu em Roda de Ter (Barcelona), a 19 de Março de 1929, vindo a morrer,
também na Cidade Condal, a 11 de Novembro de 2003.
Tendo iniciado
a sua carreira literária nos anos ’50, converteu-se no final da década de ’70
no poeta catalão mais popular e mais lido. Para isso contribuiu também o facto
de muitos textos seus terem sido musicados e interpretados por cantores como
Maria del Mar Bonet, Ramon Muntaner, Lluís Llach, Celdoni Fonoll ou Rafael
Subirachs. Para além da poesia, publicou também um volume de prosa, Contes
de la Vila de R. i altres narracions, dois livros de memórias, um de
correspondência com o poeta Joan Vinyoli e outro de crónicas e artigos de
jornal. Além disso, traduziu numerosos autores, sobretudo franceses.
Na sua longa
carreira, Martí i Pol ganhou importantes prémios, entre os quais o da Crítica,
o Salvador Espriu, o Cidade de Barcelona (tanto em tradução como em poesia), o
Prémio de Honra das Letras Catalãs, a Cruz de Sant Jordi, a Medalha de Ouro
para o Mérito nas Belas Artes, o Prémio Nacional de Literatura da Generalitat
da Catalunha e a Medalha de Ouro da mesma Generalitat. Por ocasião do seu 70.º
aniversário, multiplicaram-se as homenagens públicas e surgiu uma amplo
movimento para apresentar a sua candidatura ao Prémio Nobel.
Em volumes
individuais ou em antologias colectivas, a sua poesia tem sido traduzida para
diversas línguas, como o espanhol, o inglês, o francês, o alemão, o italiano, o
flamengo, o russo ou o japonês. Em português, tanto quanto julgo saber, estavam
apenas traduzidos três poemas, no volume de Egito Gonçalves intitulado Quinze
Poetas Catalães (Porto, Limiar, 1994). São eles: «Metamorfosi, 1», «Se falo
da morte» e «Nem me tomas, nem te tomo».
Esboçando uma
rápida apresentação da poesia de Miquel Martí i Pol, devemos começar por
sublinhar um aspecto que a crítica também costuma destacar: a sua raiz
autobiográfica, que em parte explicará as diversas orientações e matizes
assumidos pela obra ao longo dos quase cinquenta anos de actividade do autor.
Assim, a linha
neo-realista visível nos livros publicados entre os anos ’50 e o início da
década de ’70 dever-se-ia à ligação do poeta à terra natal e às suas origens
operárias (ele próprio trabalhou, desde os 14 anos, como escriturário numa
fábrica têxtil). Independentemente dessa explicação, é inegável que neste
período Martí i Pol se mostra particularmente atento à realidade social,
descrevendo e denunciando diversos aspectos da vida operária, embora
acompanhando essa abordagem com um tratamento humano marcado pela ternura e
vazado numa linguagem metafórica que evita o tom panfletário.
Importância
fulcral terá tido também a esclerose múltipla que passa a atormentá-lo a partir
de 1970 e lhe vai progressivamente dificultando os movimentos e a fala. A obra
do poeta torna-se agora mais introspectiva, passando a ser dominada por temas
como a solidão, a angústia, a morte. A ultrapassagem desta fase inicia-se em
1976, com Quadern de vacances, sendo confirmada nos livros seguintes, já
dominados por um vitalismo e por um optimismo claros. O amor e a reflexão
cívica são algumas das novas orientações que se impõem. A tendência surge
acentuada nos livros da década de ’80, mais maduros e mais marcados por uma
espécie de serenidade.
Na fase final
da obra de Martí i Pol, dos anos ’90 até 2002, parece haver uma espécie de
regresso à orientação dominante na década de ’70. O pessimismo e a decepção
surgem de novo, ainda que sob um prisma diferente: não resultam apenas da
introspecção do eu, mas estão também relacionados com os acontecimentos sociais
e políticos, a que o autor se mantém criticamente atento. A espaços, a
emergência da ironia parece sugerir uma forma de ultrapassar a resignação
pessimista que daí poderia resultar.
Obras
de Miquel Martí i Pol: Paraules al vent (1954); Quinze poemes (1957); El Poble (1966); La fàbrica (1972); Vint-i-set poemes en tres temps
(1972); La
pell del violí
(1974); Cinc esgrafiats a la mateixa paret (1976); L’arrel i l’escorça (1975); El llarg viatge (1976); Quadern de
vacances (1976); Amb vidres a la sang (1977); Crònica del demà
(1977); Contes de la vila de R. (1978); Estimada Marta (1978); L’hoste insòlit
(1978); Les clares paraules (1980); L’àmbit de tots els àmbits
(1981); Primer
llibre de Bloomsbury (1982); L’aniversari (1983); Andorra, postals i altres poemes (1984); Autobiografía
(1984); Cinc poemes d’iniciació (1984); Llibre d’absències (1985); Per preservar la veu
(1985); Bon profit! (1998); Barcelona-Roda de
Ter (1987); Els bells camins (1987); En Joan Silencis (1987);
Obertura Catalana (1988); Contes de la vila de R. i altres narracions
(1989); Defensa siciliana (1989); Obra poètica – 1 (1948-1971)
(1989); Obra poètica – 2 (1970-1980) (1990); Temps d’interludi (1990); Suite de Parlaba (1991); El fugitiu (1998); Un hivern
plàcid (1994); Llibre de les solituds (1997); Els infants componen cançons (1997); Antologia
poètica (org. de Ricard Torrents) (1997); Cinc poemes de
possibles variacions melangioses (1998); Antologia poètica (org. de
Àlex Broch) (1999); ABCEDARI. Una joia solidària (2001); Haikús en temps de guerra (2002); Després de tot (2002).
|
No demano gran cosa: poder parlar sense estrafer la veu, caminar sense crosses, fer l’amor sense haver de demanar permisos, escriure en un paper sense pautes. O bé, si sembla massa: escriure sense haver d’estrafer la veu, caminar sense pautes, parlar sense haver de demanar permisos, fer l’amor sense crosses. O bé, si sembla massa: fer l’amor sense haver d’estrafer la veu, escriure sense crosses, caminar sense haver de demanar permisos, poder parlar sense pautes. O bé, si sembla massa... (de Vint-i-set poemes en tres
temps, 1972) SI PARLO DELS TEUS ULLS Si parlo dels teus ulls em fan ressò cadiretes de boga i un ponent de coloms. Els teus ulls, tan intensos com un crit en la fosca. Si parlo dels teus llavis em fan ressò profundíssimes coves i ritmes de peresa. Els teus llavis, tan pròxims com la nit. Si parlo dels teus cabells em fam ressò platges desconegudas e quietudes d’església. Els teus cabells, com l’escuma del vent. Si parlo de les teves mans em fa ressò melicotons suavíssims i olor de roba antiga. Les teves mans, tan lleus com un sospir. Si parlo del teu cos, del teu cos que he estimat, només em fa ressò la meva veu, i llavors tanco avarament els ulls i em dic, per a mi sol, el secret dels camins que he seguit lentament a través del teu cos tan càlid com la llum, tan dens com el silenci. (de Obra poètica, vol. II, 1977) ESTENC LA MÀ Estenc la mà i no hi ets. Però
el misteri d’aquesta teva absència se’m revela més dòcilment i tot del que pensava. No tornaràs mai més, però en les coses i en mi mateix hi hauràs deixat l’empremta de la vida que visc, no solitari sinó amb el món i tu per companyia, ple de tu fins i tot quan no et recordo, i amb la mirada clara dels qui estimen sense esperar cap llei de recompensa. (de Libre d’Absències, 1985) |
Não peço grande coisa: poder falar sem disfarçar a voz, caminhar sem muletas, fazer amor sem ter de pedir licença, escrever num papel sem pautas. Ou então, se parecer demais: escrever sem ter de disfarçar a voz, caminhar sem pautas, falar sem ter de pedir licença, fazer amor sem muletas. Ou então, se parecer demais: fazer amor sem ter de disfarçar a voz, escrever sem muletas, caminhar sem ter de pedir licença, poder falar sem pautas. Ou então, se parecer demais... SE FALO DOS TEUS OLHOS Se falo dos teus olhos, em mim ecoam cadeirinhas de junco e um ocaso de pombos. Os teus olhos, tão intensos como um grito na escuridão. Se falo dos teus lábios, em mim ecoam profundíssimas grutas e ritmos de preguiça. Os teus lábios, tão próximos como a noite. Se falo do teu cabelo, em mim ecoam praias desconhecidas e quietudes de igreja. O teu cabelo, como a espuma do vento. Se falo das tuas mãos, em mim ecoam maracotões suavíssimos e odor de roupa antiga. As tuas mãos, tão leves como um suspiro. Se falo do teu corpo, do teu corpo que amei, só ecoa em mim a minha voz, e então fecho avaramente os olhos e digo, para mim só, o segredo dos caminhos que lentamente segui através do teu corpo tão cálido como a luz, tão denso como o silêncio. ESTENDO A MÃO Estendo a mão e não estás. Mas
o mistério desta tua ausência é-me revelado mais docilmente ainda do que pensava. Não voltarás jamais, mas nas coisas e em mim mesmo terás deixado a marca da vida que vivo, não solitário mas antes com o mundo e tu por companhia, impregnado de ti mesmo quando não te lembro, e com o olhar límpido dos que amam sem esperar nenhuma lei de recompensa. |