TRÊS CRÓNICAS DE QUIM MONZO TRÊS CRÓNICAS
DE QUIM MONZO
FRANCISCO TOPA
Quim Monzó é o nome literário de Joaquim
Monzó i Gómez, um dos principais ficcionistas da actual literatura catalã.
Nascido em Barcelona, em 1952, tem-se afirmado sobretudo como contista e como
cronista, embora tenha publicado também três romances, bem recebidos pela
crítica e pelo público. Além disso, é autor de letras de canções, guionista
(escreveu por exemplo, em colaboração com Cuca Canals, os diálogos de Jamón,
jamón, de Bigas Luna) e tradutor com largo e apreciado trabalho, que contempla,
entre outros, Truman Capote, J. D. Salinger, Ray Bradbury, Thomas Hardy, Harvey
Fierstein, Ernest Hemingway, John Barth, Roald Dahl, Mary Shelley, Howard
Barker, Arthur Miller.
A sua estreia em livro ocorreu em
1976, com o romance L’udol del griso al caire de les clavegueres, que
recebeu o prémio Prudenci Bertrana. A aclamação do público chegaria dois anos
depois, com a colectânea de contos Uf, va dir ell, igualmente aplaudida
pela crítica. Nos anos seguintes, esse sucesso foi amplamente alargado, como o
confirma a atribuição de outras distinções importantes, como o Prémio Nacional
de Literatura, o Cidade de Barcelona de narrativa, o de romance de El Temps,
a Letra de Ouro para o melhor livro do ano, o dos Escritores Catalães e, por
quatro vezes, o da crítica Serra d’Or.
Quase
toda a obra de Quim Monzó (actualmente constituída por três romances, oito livros de contos e nove volumes de crónicas) está traduzida para espanhol. Vários livros e textos seus foram
também vertidos para Alemão, Esloveno, Francês, Galego, Húngaro, Inglês, Italiano,
Japonês, Neerlandês, Norueguês, Romeno, Russo, Sérvio, Sueco e Vasco. Quanto ao
Português, suponho que esta é a primeira tentativa de tradução, o que só pode
dever-se a manifesta distracção dos nossos editores.
Numa rápida apresentação da obra
monzoniana, dever-se-á talvez começar por sublinhar o olhar original,
frequentemente ‘radical’ e às vezes cruel, que o autor lança sobre o paradoxo,
o absurdo, o sem-sentido, o grotesco, o tédio da vida do homem contemporâneo.
Apoiando-se na ironia e num humor pessimista e até cínico, a ficção de Quim
Monzó está dominada pela imagem do labirinto, da encruzilhada, do círculo, da
espiral, como tem sido amplamente notado pelos comentadores. No seu centro está
geralmente uma personagem marcada pela solidão, pelo desencontro, por traumas e
obsessões de vário tipo, por segredos que chegam a ser macabros. Ao contrário
do que talvez fosse de esperar, o desenlace – designadamente nos contos –
raramente é trágico: os finais são muitas vezes abertos e ambíguos, o que
aumenta a desorientação e a perturbação do leitor; outras vezes, a narrativa
envereda pelo humor negro ou aproxima-se do fantástico, sublinhando assim o
absurdo de uma forma que acaba por ser paródica.
Pensando nos géneros, ou subgéneros,
que Quim Monzó tem privilegiado – o conto e a crónica –, poderíamos acrescentar
que essa orientação de fundo aparece associada a uma construção narrativa
altamente depurada, que parece levar ao limite o princípio da subtracção dos
elementos supérfluos. Algo de semelhante se observa ao nível da linguagem, o
que ajuda a explicar a impressão – tantas vezes notada pela crítica – de que em
Monzó o profundo parece simples.
As crónicas, esse parente (só em
aparência pobre) da literatura, são talvez a área em que essa impressão mais se
faz sentir. Já alguém perguntou se a crónica é uma arte do útil ou do fútil. No
caso de Quim Monzó, a resposta é inequívoca: a crónica é um exercício literário
útil da inteligência. Mesmo quando parte de acontecimentos que parecem
desprovidos de importância, o autor sabe sempre tocar-nos e inquietar-nos com a
sua singular capacidade analítica e argumentativa. De um modo subtil, bem-humorado, despretensioso,
ajuda-nos a reter os sinais importantes do quotidiano que de outro modo
estariam condenados ao esquecimento. É por isso que Monzó constitui um bom
exemplo para mostrar que o cronista moderno não está assim tão afastado do
antigo cronista: também ele faz história; uma história certamente diferente,
atenta que está ao presente, ao instante, ao quotidiano, ao acontecimento
‘miúdo’. Mas uma história com maiúscula, pela sua capacidade de sugerir – mesmo
que de forma interrogativa e provocativa – um significado largo, que às vezes
ultrapassa as fronteiras do tempo e do lugar.
Livros publicados: romances: L’udol del
griso al caire de les clavegueres (1976); Benzina (1983); La magnitud de la tragedia (1989); contos: Self
Service (em
colaboração com Biel Mesquida) (1977); Uf, va dir
ell
(1978); Olivetti, Moulinex, Chaffoteaux et Maury (1980); L’illa de Maians (1985); El perquè de tot plegat (1993);
Guadalajara (1996);
Vuitanta-sis contes (Uf, va dir
ell, Olivetti, Moulinex, Chaffoteaux et Maury, L’illa de Maians, El perquè de tot plegat y Guadalajara) (1999); El millor dels mons (2001); Tres Nadals (2003); crónicas: El dia del
senyor
(1984); Zzzzzzzz (1987);
La maleta turca (1990);
No plantaré cap arbre (1994); Hotel Intercontinental (1991);
Del tot indefens davant dels hostils imperis
alienígenes (1998); Tot és mentida (2000); El tema del tema (2003); Catorze ciutats comptant-hi Brooklyn (2004).
(Antes
de dar definitivamente a palavra a Monzó, seja-me permitida uma observação
rápida sobre esta coisa estranha que é a nossa sistemática ignorância dos
nossos irmãos que estão do outro lado da Península. Pensando sobretudo no
contexto universitário, não encontro explicação para o desprezo a que
continuamos a votar a língua e a literatura catalãs. Tanto quanto julgo saber,
não há em Portugal nenhum Centro ou Instituto vocacionado para o seu estudo e
para o seu ensino. Pior ainda: suponho que nenhuma das nossas Faculdades com um
curso de Estudos Espanhóis oferece sequer uma cadeira de língua e/ou de
literatura catalãs. Se as razões eram de ordem política, há 27 anos que não
fazem sentido, se é que alguma vez o fizeram. E a verdade é que só pode
resultar em empobrecimento nosso o não reconhecimento de uma literatura como a
catalã, que tem uma tradição antiga e bem consolidada e conta com autores e
textos de nível incontestado.)
As três crónicas cuja tradução
apresento de seguida pertencem todas ao livro Tot és mentida (Barcelona,
Quaderns Crema, 2000).
BARBITÚRICS
El suposat intent de suïcidi de Naomi Campbell després d’haver discutit amb Joaquín Cortés demostra
com és de difícil fugir de les tendències dominants, fins i tot en una cosa
aparentment tan poc frívola com és matar-se, encara que sigui de manera fingida
i amb l’objectiu d’impressionar el causant del nostre despit. Des de sempre,
les actrius han fet servir sobretot barbitúrics, elevats definitivament a la
categoria de mite després que Marylin Monroe en prengués per acomiadar-se
d’aquest món roí. Tan
sols hi ha una breu època d’excepció, en què cedeixen el lideratge al ganivet.
Va ser a partir del 1905, quan va arribar a Europa la notícia que els oficials
japonesos se suïcidaven obrint-se el ventre al camp de batalla. Al tout Paris li va semblar un mètode
refinat i, en conseqüència, durant un cert temps, entre els suïcides parisencs
– actors inclosos – es va posar de moda l’harakiri.
Un altre
punt que s’ha d’estudiar és tot això de les presses. ¿Què vol dir barallar-se a les dues de la matinada i
deixar-se endur per un rampell? Les presses de Naomi Campbell són als antípodes del
protocol i l’elegància que escauen en un acte tan transcendental per la vida de
qualsevol persona. En aquest sentit, cal recordar com a exemplar el suïcidi de
Lupe Vélez, una actriu mexicana que va viure a Hollywood, on se la coneixia com The
Mexican Bomb.
L’actriu va ser cèlebre als anys trenta. Les males llengües diuen que, més que
pels seus dots d’actriu, pels embolics amb Gary Cooper, Johnny Weissmuller i
d’altres.
Un
dia, Lupe Vélez va decidir suïcidar-se. Primer va triar la data més adient.
Arribat el dia, va fer que li portessin a casa cent cistelles plenes de flors.
Casa seva era una d’aquelles vil.les baixetes, d’un estil arquitectònic entre mexicà i moresc, en què,
segons la mitomania, vivien en aquella època tots els actors. Lupe Vélez hi va
fer anar el millor maquillador i el millor perruquer de Hollywood. Un cop empolainada, es va posar un vestit
de lamé daurat i les millors joies. Es va fer servir el sopar al menjador. Un sopar per
ella sola, a la llum de les espelmes. El menú: una selecció de plats mexicans,
abundantment especiats, picants. Quan va haver acabat, va ordenar als criats
que es retiressin. Va pujar al dormitori, on l’aire era a aquestes altures
embafador per les dotzenes i dotzenes de rams de flors que envoltaven el llit.
Es va pendre un tub de Seconal, es va ajeure damunt del cobrellit,
espectacularment brodat, va adoptar una postura estudiada i va esperar la mort.
Vet
aquí una manera charmante de dir adéu a la vida, estil gran drama; res a veure
amb el mètode matusser i improvisat de la Campbell. Tot i que, en honor a la
veritat, s’ha de dir que el suïcidi de Lupe Vélez no va acabar de la manera
refinada que havia previst. La suma del Seconal, la fragància irrespirable de
les flors i les espècies del sopar li va provocar una reacció inesperada. Quan
feia una estona que s’havia ajagut, Lupe Vélez es va despertar de sobte com
nàusees, es va llevar i va anar a correcuita cap al quarto de bany. No va
aconseguir aguantar-se prou, però, i abans d’arribar a la tassa del vàter va
començar a vomitar sobre les rajoles de marbre. El vòmit la va fer relliscar i
es va esberlar el crani amb el lavabo.
BARBITÚRICOS
A suposta tentativa de suicídio de Naomi Campbell, depois de ter discutido com
Joaquín Cortés, demonstra como é difícil fugir das tendências dominantes, mesmo
numa coisa aparentemente tão pouco frívola como é matar-se, ainda que seja de
modo simulado e com o objectivo de impressionar o causador do nosso despeito.
Desde sempre, as actrizes usaram sobretudo barbitúricos, elevados
definitivamente à categoria de mito depois de Marylin Monroe os ter tomado para
se despedir deste mundo ruim. Houve apenas uma breve época de excepção, em que
cederam a liderança à faca. Foi a partir de 1905, quando chegou à Europa a
notícia de que os oficiais japoneses se suicidavam abrindo o ventre no campo de
batalha. Pareceu a tout Paris um método refinado e, por isso, durante
algum tempo, entre os suicidas parisienses – actores incluídos – tornou-se moda
o harakiri.
Outro aspecto que deve ser estudado
é essa coisa das pressas. Que quer dizer brigar às duas da madrugada e deixar-se levar por um repente? As
pressas de Naomi Campbell estão nos antípodas do protocolo e da elegância que
convêm a um acto tão transcendente para a vida de qualquer pessoa. Neste
sentido, convém recordar como exemplar o suicídio de Lupe Vélez, uma actriz
mexicana que viveu em Hollywood, onde era
conhecida como The Mexican Bomb. A actriz foi
célebre nos anos 30. Dizem as más línguas que, mais que pelos seus dotes de
actriz, pelas confusões com Gary Cooper, Johnny Weissmuller e outros.
Um dia, Lupe Vélez decidiu
suicidar-se. Primeiro escolheu a data mais adequada. Chegado o dia, pediu que
lhe levassem a casa cem cestos cheios de flores. A sua casa era uma daquelas
vilas baixinhas, de um estilo arquitectónico entre o mexicano e o mourisco, em
que, segundo a mitomania, viviam naquela época todos os actores. Lupe Vélez
chamou o melhor maquilhador e o melhor cabeleireiro de Hollywood. Uma vez
arranjada, pôs um vestido de lamé dourado e as melhores jóias. Fez servir o
jantar na sala. Um jantar só para ela, à luz das velas. O menu: uma selecção de
pratos mexicanos, abundantemente condimentados, picantes. Quando acabou,
ordenou aos criados que se retirassem. Subiu ao quarto, onde o ar era agora
enjoativo por causa das dezenas e dezenas de ramos de flores que rodeavam a
cama. Tomou um tubo de Seconal, deitou-se por cima da colcha, espectacularmente
bordada, adoptou uma postura estudada e esperou a morte.
Aqui está uma maneira elegante de
dizer adeus à vida, estilo melodramático; nada a ver com o método tosco e
improvisado da Campbell. Ainda que, em abono da verdade, deva dizer-se que o
suicídio de Lupe Vélez não acabou da maneira refinada que ela tinha previsto. A
soma do Seconal, da fragrância irrespirável das flores e das especiarias do
jantar provocou-lhe uma reacção inesperada. Algum tempo depois de se deitar,
Lupe Vélez acordou subitamente com náuseas, levantou-se e dirigiu-se à pressa
ao quarto de banho. Não conseguiu aguentar-se o suficiente e antes de chegar à
sanita começou a vomitar sobre os ladrilhos de mármore. O vómito fê-la
escorregar e partiu a cabeça de encontro ao lavatório.
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EL PROTOCOL
Les
associacions americanes de minusvàlids no han aconseguít que, en el monument a
Roosevelt inaugurat a Washington fa unes setmanes, l’homenatjat hi aparegui amb
cadira de rodes. Però sí que han aconseguit que la casa Mattell – que fabrica
la Barbie – llanci al mercat una nina minusvàlida. Es diu Becki, va amb cadira
de rodes i, abans de distribuir-la, han avisat que l’han creada amb un objectiu
positiu: «aconseguir que el món de les nines Barbie reflecteixi la riquesa i la
diversitat del món real».
La
casa Mattel la sap ben llarga. Durant lustres va ser denigrada per les
feministes, que veien en la Barbie el súmmum de la incorreció política. Ja podien elles anar esgargamellant-se si,
mentrestant, la Barbie continuava en mans de les nenes, perpetuant, generació
rere generació, el model de dona objecte. La Barbie vivia obsessionada pels
modelets, anava sempre amb necessers de maquillatge i la seva màxima aspiració
a la vida era jeure al sol i esperar que el Ken passés a recollir-la. Des del
punt de vista racial, la Barbie també va tenir problemes. Els trets facials, la
figura i la cabellera rossa reproduïen estereotips wasp, sense recordar-se dels
altres. Després d’uns anys de desconcert, Mattel va reaccionar i va veure que
era més sensat i rendible acontentar tothom. Va crear una Barbie negra, una
Barbie hispana, una Barbie asiàtica...
Fa
uns mesos un fabricant – crec que valencià – va llançar al mercat uns ninos amb
esgarrinxades, ferides, algun ull de vellut i una dent trencada. L’opinió
pública va decidir que reproduïen nens maltractats, que això era una vergonya i
que hauria de retirar-los del mercat. El fabricant es va atipar de repetir que
no reproduïen nens maltractats, sinó nens que havian tingut un accident, de la
mena d’accidents que apareixen en aquests vídeos casolans que des de fa un munt
d’anys surten per televisió. Aquests vídeos en què, per exemple, a un nen d’un
any li cau al cap un test amb un gerani. Molt adults ho troben tan divertit
que, quan ho estan gravant amb la hàndicam, per comptes de córrer a auxiliar el
nen que s’ha trencat la crisma, continuen gravant per enviar després el vídeo a
la tele.
El
fabricant dels ninos lesionats va pagar la inexperiència. Els va llançar al
mercat sense haver bombardejat el personal amb una teoria políticament correcta
que n’expliqués «l’objectiu positiu». ¿Quin? Fomentar la solidaritat amb els nens de
famílies problemàtiques, per exemple. Si el rotllo teòric hagués estat prou bo,
fins i tot podria haver declarat, sense dissimular, que eren nens maltractats
per pares perversos i bevedors, i això n’hauria incrementat l’èxit i l’interès
social. La
cosa és tan senzilla que sembla mentida que hi hagi gent que no s’adoni que es
tracta, simplement, de complir un protocol previ: la declaració d’intencions
solidàries. Pagada aquesta pòlissa, els vigilants de la correcció política hi
donen el vistiplau i no passa el que li va passar al fabricant valencià, per
tanoca.
O PROTOCOLO
As associações americanas de
deficientes não conseguiram que, no monumento a
Roosevelt inaugurado em Washington umas semanas atrás, o homenageado aí
figurasse com cadeira de rodas. Conseguiram contudo que a casa Mattell – que
fabrica a Barbie – lance no mercado uma boneca deficiente. Chama-se Becki,
aparece em cadeira de rodas e, antes de distribuí-la, avisaram que foi criada
com um objectivo positivo: “conseguir que o mundo das bonecas Barbie reflicta a
riqueza e a diversidade do mundo real”.
A casa Mattel sabe-a toda. Durante
décadas foi denegrida pelas feministas, que viam na Barbie o cúmulo da incorrecção política. Elas bem podiam esganiçar-se que
a Barbie continuava entretanto nas mãos das
meninas, perpetuando, geração após geração, o modelo da mulher objecto. A
Barbie vivia obcecada pelas modelos, andava sempre com neéessaires de
maquilhagem e tinha como máxima aspiração na vida ficar estendida ao sol e
esperar que o Ken viesse buscá-la. Do ponto de vista racial, a Barbie também
teve problemas. Os traços faciais, a figura e a cabeleira loira reproduziam
estereótipos WASP, ignorando os outros. Depois de alguns anos de
desconcerto, a Mattel reagiu e percebeu que era mais sensato e rentável
contentar toda a gente. Criou uma Barbie negra, uma Barbie hispânica, uma
Barbie asiática...
Há uns meses um empresário – creio
que de Valência – lançou no mercado uns bonecos com arranhões, feridas, um olho
negro e dentes partidos. A opinião pública decidiu que reproduziam crianças
maltratadas, que isso era una vergonha e que deviam ser retirados do mercado. O
empresário fartou-se de repetir que não reproduziam crianças maltratadas, mas
antes crianças que tiveram um acidente, do tipo de acidentes que aparecem
naqueles vídeos caseiros que há um monte de anos passam na televisão. Aqueles
vídeos em que, por exemplo, cai um vaso na cabeça de um menino. Muitos adultos
acham isso tão divertido que, quando estão a filmar com a máquina portátil, em
vez de correr a ajudar o menino que rachou a cabeça, continuam a gravar para
depois mandar o vídeo para a televisão.
O empresário dos bonecos feridos
pagou o preço da inexperiência. Lançou-os no mercado sem ter bombardeado o
pessoal com uma teoria politicamente correcta que explicasse o seu “objectivo
positivo”. Qual? Fomentar a solidariedade com as crianças de famílias
problemáticas, por exemplo. Se o rótulo teórico fosse suficientemente bom,
poderia até ter declarado, sem mentir, que eram crianças maltratadas por pais
perversos e bêbedos, e isso teria incrementado o êxito e o interesse social do
produto. A coisa é tão simples que parece mentira que haja gente que não
perceba que se trata, simplesmente, de cumprir um protocolo prévio: a
declaração de intenções solidárias. Paga esta apólice, os vigilantes da
correcção política dão-lhe o visto e não acontece o que aconteceu ao palerma do
empresário de Valencia.
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PEL CIVIL
La
setmana passada, l’alcalde d’Alella, Antoni Caralps, de Ciu, va anunciar la
creació d’una cerimònia laica d’imposició de nom. Les parelles que s’hagin
casat «pel civil» ara tindran la possibilitat de batejar els fills també «pel
civil». Segons l’alcalde, encara que els pares no s’hagin casat per l’església,
els nens, quan vénen al món, mereixen una benvinguda solemne. Una benvinguda
oficial i festiva, més resplendent que el fred acte formulari d’inscriure’n el
nom al registre.
De
moment, encara no hi ha batejos pel civil en cap municipi de Catalunya. Alella
serà el primer a instaurar-los. Coneixent el personal, no cal ser gaire
espavilat per preveure que aviat se n’hi apuntaran d’altres. L’avanç progressiu
del laïcisme cap a territoris tradicionalment religiosos és un fenomen
interessant i simptomàtic. En aquest cas, per exemple, el bateig civil no
tindrà cap mena de valor administratiu: serà merament simbòlic. Hi haurà qui es
preguntarà: aleshores, ¿quin
sentit té? La resposta és clara: el ritual. Una festa amb flors, música, algun
discurset i un padrí i una padrina... I, després, el banquet! Vida social, que
és allò que alguns dels que a l’hora de casar-se opten pel civil troben a
faltar després, quan s’adonen que, si s’haguessin casat per l’església, podrien
celebrar el bateig, convidar parents i amics, i cap ales cinc de la tarda
portar un bon gat, d’aquells de tipus familiar. Amb el bateig civil, aquesta
carència quedarà
solucionada. Tot i que, veient com alguns enyoren els fastos i els ritus, cal
preguntar-se si de fet no s’estimarien més no haver abandonat mai els
sagraments tradicionals, que tenen molta més prosopopeia.
Tenint
en compte que la mateixa situació d’enyorança es repeteixi quan arriba el
moment en què els casats per l’església celebren la comunió dels fills, segur
que algun alcalde anunciarà aviat la comunió «pel civil». La justificació és
fàcil. Si, a favor de la seva «cerimònia d’imposició de nom», l’alcalde
d’Alella argumenta que els romans ja la celebraven, podria argumentar-se també
que els romans celebraven amb una cerimònia el pas de la infància a la
pubertat. Ja sigui als nou, als
dotze o als catorze anys, al llarg de mil.lennis s’ha celebrat el pas de nen a
noi amb ritus i festes diverses. Tot solucionat, doncs. Sobre aquesta base històrica es munta la «comunió civil», i a
encarregar taula en algun d’aquests restaurants que al rètol anuncien bodes i banquets.
Tal
com hem vist, el casament, el baptisme i la comunió civils no presenten cap
mena de problema. Els altres
sagraments són més difícils de laïcitzar. ¿Com podem justificar la confirmació,
l’eucaristia, la penitencia o l’orde sagrat «pel civil»? En canvi,
l’extremunció civil és bufar i fer ampolles: al costat del llit de mort, un
funcionari municipal – o fins i tot el mateix alcalde – et perdonarà els pecats
civils: les multes de trànsit que encara deus, aquell Ibi que no vas pagar
durant tres anys i les factures sense Iva. Després,
lliure de tota culpa laica, podràs tancar els ulls i morir en pau i pel civil.
PELO CIVIL
Na semana passada, o Presidente da
Câmara de Alella, Antoni Caralps, da Covergència i Unió, anunciou a criação de
uma cerimónia laica de imposição de nome. Os casais que se tenham unido “pelo civil”
terão agora a possibilidade de baptizar os filhos também “pelo civil”. Segundo
o Presidente da Câmara, ainda que os pais não tenham casado pela igreja, as
crianças, quando vêm ao mundo, merecem umas boas-vindas solenes. Umas
boas-vindas oficiais e festivas, mais resplandecentes que a seca formalidade de
inscrever o nome no registo.
De momento, não há ainda baptizados
pelo civil em nenhum município da Catalunha. Alella será o primeiro a
instaurá-los. Conhecendo o pessoal, não é preciso ser demasiado esperto para
prever que rapidamente outros se seguirão. O avanço progressivo do laicismo em
direcção a territórios tradicionalmente religiosos é um fenómeno interessante e
sintomático. Neste caso, por exemplo, o baptismo civil não terá nenhum tipo de
valor administrativo: será meramente simbólico. Haverá quem se pergunte: então
que sentido tem? A resposta é clara: o ritual. Uma festa com flores, música, um
discursozinho e um padrinho e uma madrinha... E, depois, o banquete! Vida
social, que é aquilo de que sentem depois a falta alguns dos que na altura de
casarem optam pelo civil, ao perceberem que, se tivessem casado pela igreja,
poderiam comemorar o baptizado, convidar os parentes e amigos e, até às cinco
da tarde, apanhar uma boa piela, dessas de tipo familiar. Com o baptizado
civil, essa carência ficará resolvida. Ainda que, vendo
como alguns sentem saudades dos fastos e dos ritos, importe perguntar se de
facto não seria melhor nunca terem abandonado os sacramentos tradicionais, que
têm muito mais estilo.
Tendo em conta que as saudades se
repetem quando chega o momento em que os casados pela igreja celebram a
comunhão dos filhos, de certeza que algum Presidente de Câmara anunciará em
breve a comunhão “pelo civil”. A justificação é simples. Se a favor da sua
“cerimónia de imposição de nome” o Presidente da Câmara de Alella argumenta que
os romanos já a celebravam, poderia argumentar-se também que os romanos
assinalavam com una cerimónia a passagem da infância para a puberdade. Fosse
aos nove, aos doze ou aos catorze anos, celebrou-se ao longo de milénios a
passagem de menino a rapaz com ritos e festas diversas. Tudo resolvido,
portanto. A “comunhão civil” fica assim legitimada por esta base histórica, e
toca a reservar mesa em algum destes restaurantes que anunciam no letreiro CASAMENTOS E BANQUETES.
Tal como vimos, o casamento, o
baptismo e a comunhão civis não apresentam nenhum tipo de problema. Os outros
sacramentos são mais difíceis de laicizar. Como podemos justificar a
confirmação, a eucaristia, a penitência ou a ordem sagrada “pelo civil”? Em
contrapartida, a extrema-unção civil é de caras: ao lado do leito de morte, um
funcionário municipal – ou até o próprio Presidente da Câmara – perdoará os
pecados civis: as multas de trânsito que você ainda deve, aquela Contribuição
Autárquica que não pagou durante três anos e as facturas sem IVA. Depois, livre
de toda a culpa laica, poderá fechar os olhos e morrer em paz e pelo civil.