TRÊS CRÓNICAS DE QUIM MONZO TRÊS CRÓNICAS DE QUIM MONZO       

 

FRANCISCO TOPA

 

 

            Quim Monzó é o nome literário de Joaquim Monzó i Gómez, um dos principais ficcionistas da actual literatura catalã. Nascido em Barcelona, em 1952, tem-se afirmado sobretudo como contista e como cronista, embora tenha publicado também três romances, bem recebidos pela crítica e pelo público. Além disso, é autor de letras de canções, guionista (escreveu por exemplo, em colaboração com Cuca Canals, os diálogos de Jamón, jamón, de Bigas Luna) e tradutor com largo e apreciado trabalho, que contempla, entre outros, Truman Capote, J. D. Salinger, Ray Bradbury, Thomas Hardy, Harvey Fierstein, Ernest Hemingway, John Barth, Roald Dahl, Mary Shelley, Howard Barker, Arthur Miller.

            A sua estreia em livro ocorreu em 1976, com o romance L’udol del griso al caire de les clavegueres, que recebeu o prémio Prudenci Bertrana. A aclamação do público chegaria dois anos depois, com a colectânea de contos Uf, va dir ell, igualmente aplaudida pela crítica. Nos anos seguintes, esse sucesso foi amplamente alargado, como o confirma a atribuição de outras distinções importantes, como o Prémio Nacional de Literatura, o Cidade de Barcelona de narrativa, o de romance de El Temps, a Letra de Ouro para o melhor livro do ano, o dos Escritores Catalães e, por quatro vezes, o da crítica Serra d’Or.

            Quase toda a obra de Quim Monzó (actualmente constituída por três romances, oito livros de contos e nove volumes de crónicas) está traduzida para espanhol. Vários livros e textos seus foram também vertidos para Alemão, Esloveno, Francês, Galego, Húngaro, Inglês, Italiano, Japonês, Neerlandês, Norueguês, Romeno, Russo, Sérvio, Sueco e Vasco. Quanto ao Português, suponho que esta é a primeira tentativa de tradução, o que só pode dever-se a manifesta distracção dos nossos editores.

            Numa rápida apresentação da obra monzoniana, dever-se-á talvez começar por sublinhar o olhar original, frequentemente ‘radical’ e às vezes cruel, que o autor lança sobre o paradoxo, o absurdo, o sem-sentido, o grotesco, o tédio da vida do homem contemporâneo. Apoiando-se na ironia e num humor pessimista e até cínico, a ficção de Quim Monzó está dominada pela imagem do labirinto, da encruzilhada, do círculo, da espiral, como tem sido amplamente notado pelos comentadores. No seu centro está geralmente uma personagem marcada pela solidão, pelo desencontro, por traumas e obsessões de vário tipo, por segredos que chegam a ser macabros. Ao contrário do que talvez fosse de esperar, o desenlace – designadamente nos contos – raramente é trágico: os finais são muitas vezes abertos e ambíguos, o que aumenta a desorientação e a perturbação do leitor; outras vezes, a narrativa envereda pelo humor negro ou aproxima-se do fantástico, sublinhando assim o absurdo de uma forma que acaba por ser paródica.

            Pensando nos géneros, ou subgéneros, que Quim Monzó tem privilegiado – o conto e a crónica –, poderíamos acrescentar que essa orientação de fundo aparece associada a uma construção narrativa altamente depurada, que parece levar ao limite o princípio da subtracção dos elementos supérfluos. Algo de semelhante se observa ao nível da linguagem, o que ajuda a explicar a impressão – tantas vezes notada pela crítica – de que em Monzó o profundo parece simples.

            As crónicas, esse parente (só em aparência pobre) da literatura, são talvez a área em que essa impressão mais se faz sentir. Já alguém perguntou se a crónica é uma arte do útil ou do fútil. No caso de Quim Monzó, a resposta é inequívoca: a crónica é um exercício literário útil da inteligência. Mesmo quando parte de acontecimentos que parecem desprovidos de importância, o autor sabe sempre tocar-nos e inquietar-nos com a sua singular capacidade analítica e argumentativa. De um  modo subtil, bem-humorado, despretensioso, ajuda-nos a reter os sinais importantes do quotidiano que de outro modo estariam condenados ao esquecimento. É por isso que Monzó constitui um bom exemplo para mostrar que o cronista moderno não está assim tão afastado do antigo cronista: também ele faz história; uma história certamente diferente, atenta que está ao presente, ao instante, ao quotidiano, ao acontecimento ‘miúdo’. Mas uma história com maiúscula, pela sua capacidade de sugerir – mesmo que de forma interrogativa e provocativa – um significado largo, que às vezes ultrapassa as fronteiras do tempo e do lugar.         

            Livros publicados: romances: L’udol del griso al caire de les clavegueres (1976); Benzina (1983); La magnitud de la tragedia (1989); contos: Self Service (em colaboração com Biel Mesquida) (1977); Uf, va dir ell (1978); Olivetti, Moulinex, Chaffoteaux et Maury (1980); L’illa de Maians (1985); El perquè de tot plegat (1993); Guadalajara (1996); Vuitanta-sis contes (Uf, va dir ell, Olivetti, Moulinex, Chaffoteaux et Maury, L’illa de Maians, El perquè de tot plegat y Guadalajara) (1999); El millor dels mons (2001); Tres Nadals (2003); crónicas: El dia del senyor (1984); Zzzzzzzz (1987); La maleta turca (1990); No plantaré cap arbre (1994); Hotel Intercontinental (1991); Del tot indefens davant dels hostils imperis alienígenes (1998); Tot és mentida (2000); El tema del tema (2003); Catorze ciutats comptant-hi Brooklyn (2004).

            (Antes de dar definitivamente a palavra a Monzó, seja-me permitida uma observação rápida sobre esta coisa estranha que é a nossa sistemática ignorância dos nossos irmãos que estão do outro lado da Península. Pensando sobretudo no contexto universitário, não encontro explicação para o desprezo a que continuamos a votar a língua e a literatura catalãs. Tanto quanto julgo saber, não há em Portugal nenhum Centro ou Instituto vocacionado para o seu estudo e para o seu ensino. Pior ainda: suponho que nenhuma das nossas Faculdades com um curso de Estudos Espanhóis oferece sequer uma cadeira de língua e/ou de literatura catalãs. Se as razões eram de ordem política, há 27 anos que não fazem sentido, se é que alguma vez o fizeram. E a verdade é que só pode resultar em empobrecimento nosso o não reconhecimento de uma literatura como a catalã, que tem uma tradição antiga e bem consolidada e conta com autores e textos de nível incontestado.)

            As três crónicas cuja tradução apresento de seguida pertencem todas ao livro Tot és mentida (Barcelona, Quaderns Crema, 2000).

 

 

 

BARBITÚRICS

 

            El suposat intent de suïcidi de Naomi Campbell després d’haver discutit amb Joaquín Cortés demostra com és de difícil fugir de les tendències dominants, fins i tot en una cosa aparentment tan poc frívola com és matar-se, encara que sigui de manera fingida i amb l’objectiu d’impressionar el causant del nostre despit. Des de sempre, les actrius han fet servir sobretot barbitúrics, elevats definitivament a la categoria de mite després que Marylin Monroe en prengués per acomiadar-se d’aquest món roí. Tan sols hi ha una breu època d’excepció, en què cedeixen el lideratge al ganivet. Va ser a partir del 1905, quan va arribar a Europa la notícia que els oficials japonesos se suïcidaven obrint-se el ventre al camp de batalla. Al tout Paris li va semblar un mètode refinat i, en conseqüència, durant un cert temps, entre els suïcides parisencs – actors inclosos – es va posar de moda l’harakiri.

            Un altre punt que s’ha d’estudiar és tot això de les presses. ¿Què vol dir barallar-se a les dues de la matinada i deixar-se endur per un rampell? Les presses de Naomi Campbell són als antípodes del protocol i l’elegància que escauen en un acte tan transcendental per la vida de qualsevol persona. En aquest sentit, cal recordar com a exemplar el suïcidi de Lupe Vélez, una actriu mexicana que va viure a Hollywood, on se la coneixia com The Mexican Bomb. L’actriu va ser cèlebre als anys trenta. Les males llengües diuen que, més que pels seus dots d’actriu, pels embolics amb Gary Cooper, Johnny Weissmuller i d’altres.

            Un dia, Lupe Vélez va decidir suïcidar-se. Primer va triar la data més adient. Arribat el dia, va fer que li portessin a casa cent cistelles plenes de flors. Casa seva era una d’aquelles vil.les baixetes, d’un estil arquitectònic entre mexicà i moresc, en què, segons la mitomania, vivien en aquella època tots els actors. Lupe Vélez hi va fer anar el millor maquillador i el millor perruquer de Hollywood. Un cop empolainada, es va posar un vestit de lamé daurat i les millors joies. Es va fer servir el sopar al menjador. Un sopar per ella sola, a la llum de les espelmes. El menú: una selecció de plats mexicans, abundantment especiats, picants. Quan va haver acabat, va ordenar als criats que es retiressin. Va pujar al dormitori, on l’aire era a aquestes altures embafador per les dotzenes i dotzenes de rams de flors que envoltaven el llit. Es va pendre un tub de Seconal, es va ajeure damunt del cobrellit, espectacularment brodat, va adoptar una postura estudiada i va esperar la mort.

            Vet aquí una manera charmante de dir adéu a la vida, estil gran drama; res a veure amb el mètode matusser i improvisat de la Campbell. Tot i que, en honor a la veritat, s’ha de dir que el suïcidi de Lupe Vélez no va acabar de la manera refinada que havia previst. La suma del Seconal, la fragància irrespirable de les flors i les espècies del sopar li va provocar una reacció inesperada. Quan feia una estona que s’havia ajagut, Lupe Vélez es va despertar de sobte com nàusees, es va llevar i va anar a correcuita cap al quarto de bany. No va aconseguir aguantar-se prou, però, i abans d’arribar a la tassa del vàter va començar a vomitar sobre les rajoles de marbre. El vòmit la va fer relliscar i es va esberlar el crani amb el lavabo.

 

 

BARBITÚRICOS

 

            A suposta tentativa de suicídio de Naomi Campbell, depois de ter discutido com Joaquín Cortés, demonstra como é difícil fugir das tendências dominantes, mesmo numa coisa aparentemente tão pouco frívola como é matar-se, ainda que seja de modo simulado e com o objectivo de impressionar o causador do nosso despeito. Desde sempre, as actrizes usaram sobretudo barbitúricos, elevados definitivamente à categoria de mito depois de Marylin Monroe os ter tomado para se despedir deste mundo ruim. Houve apenas uma breve época de excepção, em que cederam a liderança à faca. Foi a partir de 1905, quando chegou à Europa a notícia de que os oficiais japoneses se suicidavam abrindo o ventre no campo de batalha. Pareceu a tout Paris um método refinado e, por isso, durante algum tempo, entre os suicidas parisienses – actores incluídos – tornou-se moda o harakiri.

            Outro aspecto que deve ser estudado é essa coisa das pressas. Que quer dizer brigar às duas da madrugada e deixar-se levar por um repente? As pressas de Naomi Campbell estão nos antípodas do protocolo e da elegância que convêm a um acto tão transcendente para a vida de qualquer pessoa. Neste sentido, convém recordar como exemplar o suicídio de Lupe Vélez, uma actriz mexicana que viveu em Hollywood, onde era conhecida como The Mexican Bomb. A actriz foi célebre nos anos 30. Dizem as más línguas que, mais que pelos seus dotes de actriz, pelas confusões com Gary Cooper, Johnny Weissmuller e outros.

            Um dia, Lupe Vélez decidiu suicidar-se. Primeiro escolheu a data mais adequada. Chegado o dia, pediu que lhe levassem a casa cem cestos cheios de flores. A sua casa era uma daquelas vilas baixinhas, de um estilo arquitectónico entre o mexicano e o mourisco, em que, segundo a mitomania, viviam naquela época todos os actores. Lupe Vélez chamou o melhor maquilhador e o melhor cabeleireiro de Hollywood. Uma vez arranjada, pôs um vestido de lamé dourado e as melhores jóias. Fez servir o jantar na sala. Um jantar só para ela, à luz das velas. O menu: uma selecção de pratos mexicanos, abundantemente condimentados, picantes. Quando acabou, ordenou aos criados que se retirassem. Subiu ao quarto, onde o ar era agora enjoativo por causa das dezenas e dezenas de ramos de flores que rodeavam a cama. Tomou um tubo de Seconal, deitou-se por cima da colcha, espectacularmente bordada, adoptou uma postura estudada e esperou a morte.

            Aqui está uma maneira elegante de dizer adeus à vida, estilo melodramático; nada a ver com o método tosco e improvisado da Campbell. Ainda que, em abono da verdade, deva dizer-se que o suicídio de Lupe Vélez não acabou da maneira refinada que ela tinha previsto. A soma do Seconal, da fragrância irrespirável das flores e das especiarias do jantar provocou-lhe uma reacção inesperada. Algum tempo depois de se deitar, Lupe Vélez acordou subitamente com náuseas, levantou-se e dirigiu-se à pressa ao quarto de banho. Não conseguiu aguentar-se o suficiente e antes de chegar à sanita começou a vomitar sobre os ladrilhos de mármore. O vómito fê-la escorregar e partiu a cabeça de encontro ao lavatório.

 

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EL PROTOCOL

 

            Les associacions americanes de minusvàlids no han aconseguít que, en el monument a Roosevelt inaugurat a Washington fa unes setmanes, l’homenatjat hi aparegui amb cadira de rodes. Però sí que han aconseguit que la casa Mattell – que fabrica la Barbie – llanci al mercat una nina minusvàlida. Es diu Becki, va amb cadira de rodes i, abans de distribuir-la, han avisat que l’han creada amb un objectiu positiu: «aconseguir que el món de les nines Barbie reflecteixi la riquesa i la diversitat del món real».

            La casa Mattel la sap ben llarga. Durant lustres va ser denigrada per les feministes, que veien en la Barbie el súmmum de la incorreció política. Ja podien elles anar esgargamellant-se si, mentrestant, la Barbie continuava en mans de les nenes, perpetuant, generació rere generació, el model de dona objecte. La Barbie vivia obsessionada pels modelets, anava sempre amb necessers de maquillatge i la seva màxima aspiració a la vida era jeure al sol i esperar que el Ken passés a recollir-la. Des del punt de vista racial, la Barbie també va tenir problemes. Els trets facials, la figura i la cabellera rossa reproduïen estereotips wasp, sense recordar-se dels altres. Després d’uns anys de desconcert, Mattel va reaccionar i va veure que era més sensat i rendible acontentar tothom. Va crear una Barbie negra, una Barbie hispana, una Barbie asiàtica...

            Fa uns mesos un fabricant – crec que valencià – va llançar al mercat uns ninos amb esgarrinxades, ferides, algun ull de vellut i una dent trencada. L’opinió pública va decidir que reproduïen nens maltractats, que això era una vergonya i que hauria de retirar-los del mercat. El fabricant es va atipar de repetir que no reproduïen nens maltractats, sinó nens que havian tingut un accident, de la mena d’accidents que apareixen en aquests vídeos casolans que des de fa un munt d’anys surten per televisió. Aquests vídeos en què, per exemple, a un nen d’un any li cau al cap un test amb un gerani. Molt adults ho troben tan divertit que, quan ho estan gravant amb la hàndicam, per comptes de córrer a auxiliar el nen que s’ha trencat la crisma, continuen gravant per enviar després el vídeo a la tele.

            El fabricant dels ninos lesionats va pagar la inexperiència. Els va llançar al mercat sense haver bombardejat el personal amb una teoria políticament correcta que n’expliqués «l’objectiu positiu». ¿Quin? Fomentar la solidaritat amb els nens de famílies problemàtiques, per exemple. Si el rotllo teòric hagués estat prou bo, fins i tot podria haver declarat, sense dissimular, que eren nens maltractats per pares perversos i bevedors, i això n’hauria incrementat l’èxit i l’interès social. La cosa és tan senzilla que sembla mentida que hi hagi gent que no s’adoni que es tracta, simplement, de complir un protocol previ: la declaració d’intencions solidàries. Pagada aquesta pòlissa, els vigilants de la correcció política hi donen el vistiplau i no passa el que li va passar al fabricant valencià, per tanoca.

 

 

O PROTOCOLO

 

            As associações americanas de deficientes não conseguiram que, no monumento a Roosevelt inaugurado em Washington umas semanas atrás, o homenageado aí figurasse com cadeira de rodas. Conseguiram contudo que a casa Mattell – que fabrica a Barbie – lance no mercado uma boneca deficiente. Chama-se Becki, aparece em cadeira de rodas e, antes de distribuí-la, avisaram que foi criada com um objectivo positivo: “conseguir que o mundo das bonecas Barbie reflicta a riqueza e a diversidade do mundo real”.

            A casa Mattel sabe-a toda. Durante décadas foi denegrida pelas feministas, que viam na Barbie o cúmulo da incorrecção política. Elas bem podiam esganiçar-se que a Barbie continuava entretanto nas mãos das meninas, perpetuando, geração após geração, o modelo da mulher objecto. A Barbie vivia obcecada pelas modelos, andava sempre com neéessaires de maquilhagem e tinha como máxima aspiração na vida ficar estendida ao sol e esperar que o Ken viesse buscá-la. Do ponto de vista racial, a Barbie também teve problemas. Os traços faciais, a figura e a cabeleira loira reproduziam estereótipos WASP, ignorando os outros. Depois de alguns anos de desconcerto, a Mattel reagiu e percebeu que era mais sensato e rentável contentar toda a gente. Criou uma Barbie negra, uma Barbie hispânica, uma Barbie asiática...

            Há uns meses um empresário – creio que de Valência – lançou no mercado uns bonecos com arranhões, feridas, um olho negro e dentes partidos. A opinião pública decidiu que reproduziam crianças maltratadas, que isso era una vergonha e que deviam ser retirados do mercado. O empresário fartou-se de repetir que não reproduziam crianças maltratadas, mas antes crianças que tiveram um acidente, do tipo de acidentes que aparecem naqueles vídeos caseiros que há um monte de anos passam na televisão. Aqueles vídeos em que, por exemplo, cai um vaso na cabeça de um menino. Muitos adultos acham isso tão divertido que, quando estão a filmar com a máquina portátil, em vez de correr a ajudar o menino que rachou a cabeça, continuam a gravar para depois mandar o vídeo para a televisão.

            O empresário dos bonecos feridos pagou o preço da inexpe­riência. Lançou-os no mercado sem ter bombardeado o pessoal com uma teoria politicamente correcta que explicasse o seu “objectivo positivo”. Qual? Fomentar a solidariedade com as crianças de famílias problemáticas, por exemplo. Se o rótulo teórico fosse suficientemente bom, poderia até ter declarado, sem mentir, que eram crianças maltratadas por pais perversos e bêbedos, e isso teria incrementado o êxito e o interesse social do produto. A coisa é tão simples que parece mentira que haja gente que não perceba que se trata, simplesmente, de cumprir um proto­colo prévio: a declaração de intenções solidárias. Paga esta apólice, os vigilantes da correcção política dão-lhe o visto e não acontece o que aconteceu ao palerma do empresário de Valencia.

 

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PEL CIVIL

 

            La setmana passada, l’alcalde d’Alella, Antoni Caralps, de Ciu, va anunciar la creació d’una cerimònia laica d’imposició de nom. Les parelles que s’hagin casat «pel civil» ara tindran la possibilitat de batejar els fills també «pel civil». Segons l’alcalde, encara que els pares no s’hagin casat per l’església, els nens, quan vénen al món, mereixen una benvinguda solemne. Una benvinguda oficial i festiva, més resplendent que el fred acte formulari d’inscriure’n el nom al registre.

            De moment, encara no hi ha batejos pel civil en cap municipi de Catalunya. Alella serà el primer a instaurar-los. Coneixent el personal, no cal ser gaire espavilat per preveure que aviat se n’hi apuntaran d’altres. L’avanç progressiu del laïcisme cap a territoris tradicionalment religiosos és un fenomen interessant i simptomàtic. En aquest cas, per exemple, el bateig civil no tindrà cap mena de valor administratiu: serà merament simbòlic. Hi haurà qui es preguntarà: aleshores, ¿quin sentit té? La resposta és clara: el ritual. Una festa amb flors, música, algun discurset i un padrí i una padrina... I, després, el banquet! Vida social, que és allò que alguns dels que a l’hora de casar-se opten pel civil troben a faltar després, quan s’adonen que, si s’haguessin casat per l’església, podrien celebrar el bateig, convidar parents i amics, i cap ales cinc de la tarda portar un bon gat, d’aquells de tipus familiar. Amb el bateig civil, aquesta carència quedarà solucionada. Tot i que, veient com alguns enyoren els fastos i els ritus, cal preguntar-se si de fet no s’estimarien més no haver abandonat mai els sagraments tradicionals, que tenen molta més prosopopeia.

            Tenint en compte que la mateixa situació d’enyorança es repeteixi quan arriba el moment en què els casats per l’església celebren la comunió dels fills, segur que algun alcalde anunciarà aviat la comunió «pel civil». La justificació és fàcil. Si, a favor de la seva «cerimònia d’imposició de nom», l’alcalde d’Alella argumenta que els romans ja la celebraven, podria argumentar-se també que els romans celebraven amb una cerimònia el pas de la infància a la pubertat. Ja sigui als nou, als dotze o als catorze anys, al llarg de mil.lennis s’ha celebrat el pas de nen a noi amb ritus i festes diverses. Tot solucionat, doncs. Sobre aquesta base històrica es munta la «comunió civil», i a encarregar taula en algun d’aquests restaurants que al rètol anuncien bodes i banquets.

            Tal com hem vist, el casament, el baptisme i la comunió civils no presenten cap mena de problema. Els altres sagraments són més difícils de laïcitzar. ¿Com podem justificar la confirmació, l’eucaristia, la penitencia o l’orde sagrat «pel civil»? En canvi, l’extremunció civil és bufar i fer ampolles: al costat del llit de mort, un funcionari municipal – o fins i tot el mateix alcalde – et perdonarà els pecats civils: les multes de trànsit que encara deus, aquell Ibi que no vas pagar durant tres anys i les factures sense Iva. Després, lliure de tota culpa laica, podràs tancar els ulls i morir en pau i pel civil.

 

 

PELO CIVIL

 

            Na semana passada, o Presidente da Câmara de Alella, Antoni Caralps, da Covergència i Unió, anunciou a criação de uma cerimónia laica de imposição de nome. Os casais que se tenham unido “pelo civil” terão agora a possibilidade de baptizar os filhos também “pelo civil”. Segundo o Presidente da Câmara, ainda que os pais não tenham casado pela igreja, as crianças, quando vêm ao mundo, me­recem umas boas-vindas solenes. Umas boas-vindas oficiais e festivas, mais resplandecentes que a seca formalidade de inscrever o nome no registo.

            De momento, não há ainda baptizados pelo civil em nenhum município da Catalunha. Alella será o primeiro a instaurá-los. Conhecendo o pessoal, não é preciso ser demasiado esperto para prever que rapidamente outros se seguirão. O avanço progressivo do laicismo em direcção a territórios tradicionalmente religiosos é um fenómeno interessante e sintomático. Neste caso, por exemplo, o baptismo civil não terá nenhum tipo de valor administrativo: será meramente simbólico. Haverá quem se pergunte: então que sentido tem? A resposta é clara: o ritual. Uma festa com flores, música, um discursozinho e um padrinho e uma madrinha... E, depois, o banquete! Vida social, que é aquilo de que sentem depois a falta alguns dos que na altura de casarem optam pelo civil, ao perceberem que, se tivessem casado pela igreja, poderiam comemorar o baptizado, convidar os parentes e amigos e, até às cinco da tarde, apanhar uma boa piela, dessas de tipo familiar. Com o baptizado civil, essa carência ficará resolvida. Ainda que, vendo como alguns sentem saudades dos fastos e dos ritos, importe perguntar se de facto não seria melhor nunca terem abandonado os sacramentos tra­dicionais, que têm muito mais estilo.

            Tendo em conta que as saudades se repetem quando chega o momento em que os casados pela igreja celebram a comunhão dos filhos, de certeza que algum Presidente de Câmara anunciará em breve a comunhão “pelo civil”. A justificação é simples. Se a favor da sua “cerimónia de imposição de nome” o Presidente da Câmara de Alella argumenta que os romanos já a celebravam, poderia argumentar-se também que os romanos assinalavam com una cerimónia a passagem da infância para a puberdade. Fosse aos nove, aos doze ou aos catorze anos, celebrou-se ao longo de milénios a passagem de menino a rapaz com ritos e festas diversas. Tudo resolvido, portanto. A “comu­nhão civil” fica assim legitimada por esta base histórica, e toca a reservar mesa em algum destes restau­rantes que anunciam no letreiro CASAMENTOS E BANQUETES.

            Tal como vimos, o casamento, o baptismo e a comu­nhão civis não apresentam nenhum tipo de problema. Os outros sacramentos são mais difíceis de laicizar. Como podemos justificar a confirmação, a eucaristia, a penitência ou a ordem sagrada “pelo civil”? Em contrapartida, a extrema-unção civil é de caras: ao lado do leito de morte, um funcionário municipal – ou até o próprio Presidente da Câmara – perdoará os pecados civis: as multas de trânsito que você ainda deve, aquela Contribuição Autárquica que não pagou durante três anos e as facturas sem IVA. Depois, livre de toda a culpa laica, poderá fechar os olhos e morrer em paz e pelo civil.

 

 

           

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