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POCI-FIL-55555-2004 - Racionalidade... II

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Última actualização: 13 Janeiro, 2006

 

Designação

Racionalidade, Desejo, Crença II – da ciência cognitiva à filosofia (POCI/FIL/55555/2004) (RBD2)

Unidade de I&D da FCT

IF/GFMC - Instituto de Filosofia (Gabinete de Filosofia Moderna e Contemporânea)

Entidade(s) financiadora(s)

FCT

Investigador responsável

Sofia Miguens

Área científica

Filosofia

Palavras-chave

racionalidade; ciência cognitiva; filosofia; representação; decisão; acção

Data de início

2005

Data de conclusão

2007

Investigadores

Sofia Miguens, João Alberto Pinto, Carlos Mauro, Tomás Magalhães, Paulo Tunhas, Luísa Couto Soares, José Manuel Curado, Susana Calo, Sara Bizarro

Instituições colaboradoras

Universidade de Rutgers, FLAD, Universidade de Santiago de Compostela

URL

http://web.letras.up.pt/smiguens/mlag/index.html

Resumo

O objectivo principal deste Projecto é compreender a diferença entre as abordagens da natureza da mente feitas na ciência cognitiva e na filosofia. Para isso, tomaremos como referência tentativas, levadas a cabo na ciência cognitiva e na filosofia, de desenvolver uma teoria da racionalidade. Como no projecto anterior do grupo (RBD1, sub-projecto da Unidade I&D 502), entendemos que uma teoria da racionalidade envolve (i) uma descrição ou caracterização dos factores em jogo nas ocasiões em que agentes passam de determinadas crenças para outras crenças, adicionam ou eliminam crenças do seu corpo de crenças, ou optam, a partir de um conjunto de crenças e desejos, por um curso de acção por entre várias alternativas, (ii) um conjunto de hipóteses acerca da forma como decidimos entre critérios de correcção quando falamos da justificação ou racionalidade de crenças e acções, (iii) um conjunto de hipóteses acerca das razões por que queremos saber (se de facto queremos) se as nossas crenças são verdadeiras e os nossos raciocínios e acções racionais.

Enquanto no Projecto RBD 1 o foco do nosso interesse foi a motivação dos agentes para a acção, concebida esta quer do ponto de vista da ciência cognitiva quer da filosofia, o nosso interesse reside agora na própria relação entre filosofia e ciência cognitiva. Pensamos que uma teoria da racionalidade deve ter como ponto de partida a investigação em ciência cognitiva (nomeadamente estudos acerca de raciocínio, decisão, emoções e teoria da mente) mas não pode identificar-se com essa investigação. Para defender esta tese, pretendemos seleccionar problemas específicos (respeitantes a raciocínio, decisão, emoções e teoria da mente) e comparar abordagens desses problemas na ciência cognitiva e na filosofia. Na nossa tentativa de tornar explícitas relações e diferenças entre estudos científicos da cognição e filosofia, que virá também a permitir-nos caracterizar a agenda da filosofia da ciência cognitiva, guiar-nos-emos pelo trabalho de autores como D. Davidson, D. Dennett and J. Fodor.

Abstract

While in project RBD 1 we focused on agents’ motivation for action, conceived both from the point of view of philosophy and of cognitive science, our interest now lies in methodological issues concerning the relation between philosophy and cognitive science. We believe that a theory of rationality should have research in cognitive science (namely studies of reasoning, decision, emotion, theory of mind) as its starting point, yet should not be identified with that research. To defend this thesis we intend to select specific problems (concerning reasoning, decision, emotion, theory of mind) and compare specific approaches to those problems in cognitive science and in philosophy. In trying to make the relations and the differences between scientific studies of cognition and philosophy explicit, we will look for the work of philosophers such as D. Davidson, D. Dennett and J. Fodor as guidance.

The project also aims at finding out whether, or in which degree, research in cognitive science answers traditional philosophical questions about rationality, namely questions about knowledge and action (such as: do we possess knowledge? what should we believe in? how should we act? are we rational beings?). Philosophers have traditionally developed answers to these questions from an aprioristic point of view, but nowadays realize that cognitive science research is relevant and cannot be ignored. The fact that cognitive science research is relevant does not necessarily mean that the questions being answered are the same – in order to ground our conviction that they are not in fact the same questions, we intend to consider both aprioristic philosophical work on the nature of thought and action and empirical research (again focusing on reasoning, decision making, emotion and theory of mind).

Publicações

. INTELECTU Nº11, editada por Sofia Miguens e Sara Bizarro

. Stich & Sripada, Racionalidade, evolução e emoções (trad de Tomás Magalhães)

. T. Nagel, E, Castro trad, Encobrimento e Exposição

. Sofia Miguens: Models of understanding – minds and machines, RICI, Reitoria da UNL, Actas do Colóquio Interdisciplinaridade (também a publicar nas Actas dos Seminários do Grupo de Discussão em Ciência Cognitiva da Universidade do Porto – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação);

. Dennett’s brand of antirepresentationalism - a key to philosophical issues of cognitive science, G. Preyer (ed.)

. Concepts, Compositionality, Representations – New Problems in Cognitive Science, Protosociology, Vol. 22, 2006;

. Why can’t there be a science of rationality? – D. Davidson and cognitive science, in Miguens, S., Pinto, J.A. & Mauro, C. (eds.), Análises / Analyses – Actas do Segundo Encontro Nacional de Filosofia Analítica / Proceedings of ENFA2;

. Liberdade, Cognição, Acção, Actas do 3º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, publicado on-line em www.spfil.pt. Actas em preparação, editadas por António Paulo Costa;

. A Filosofia e o Pensamento como medida do Mundo Qual é a medida do Mundo? – A Escala de Abel Salazar, Reitoria da Universidade do Porto, Ciclo de Conferências, IRIC, publicado online em ;

. O que tem a filosofia a dizer à psicologia? – Entrevista a Charles Travis, Intelectu 11, 2005;

. O problema do auto-conhecimento, Intelectu 11, 2005 (a publicar também em Análise 27);

. J. Fodor e os problemas da filosofia da mente, Intelectu 11, 2005;

. Recensão de Preyer & Peter 2005, Contextualism in Philosophy, Revista da Faculdade de Letras, Série de Filosofia (em preparação);

. ‘I’: the purest case of an indexical and its problems, Análise (em preparação).

 

Racionalidade, Desejo, Crença II – da ciência cognitiva à filosofia

 

(do Editorial da Intelectu nº 11)

 

«Pela segunda vez (a primeira foi no seu nº 9) a Intelectu apresenta um número resultante de material reunido no âmbito de um Projecto de Investigação do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto. Trata-se desta vez do projecto Rationality, Belief, Desire II – from cognitive science to philosophy (POCI/FIL/55555/2004) (RBD2) levado a cabo no âmbito do MLAG (Mind, Language and Action Group, do Gabinete de Filosofia Moderna e Contemporânea, http://web.letras.up.pt/smiguens/mlag/index.html), e financiado pela FCT.

Os artigos situam-se entre a filosofia e ciência cognitiva. O denominador comum é a racionalidade. Constitui um objectivo central do Projecto compreender a racionalidade de agentes, nomeadamente agentes humanos. Constitui também objectivo do Projecto desenvolver a hipótese segundo a qual à filosofia incumbe desenvolver uma teoria geral da subjectividade, que enquadre as investigações sobre racionalidade provenientes de varias disciplinas. Parte da tarefa é a explorar a subjectividade como entendimento, bem como a natureza linguística desse entendimento. Uma observação prática impõe-se: é claro que nem toda a investigação em ciência cognitiva tem que ser, nem é, filosoficamente interessante. Mas muita da investigação levada a cabo em áreas da ciência cognitiva tais como a psicologia do desenvolvimento e a psicologia evolutiva é relevante para filósofos interessados em certo tipo de problemas, nomeadamente aqueles que dizem respeito à natureza da mente e da linguagem.

A importância, do ponto de vista filosófico, de investigação em psicologia do desenvolvimento e psicologia evolutiva, tem a ver com o seguinte: a contingência histórica, evolutiva, do que vem a constituir os mecanismos da mentalidade num particular agente, por exemplo humano é incontornável quando se trata de analisar a natureza dos pensadores e do pensamento. Como nota Charles Travis, na entrevista publicada neste número, o equipamento mental human é species specific, não é característico do pensador qualquer mas em dado tipo de pensador, e por isso paroquial. A entrevista feita por Sofia Miguens a Charles Travis (King’s College, London) visa precisamente estas questões – Ch. Travis procura explicar ao mesmo tempo o interesse e a proximidade entre ciência cognitiva (ele pensa sobretudo na psicologia) e filosofia, e a diferença de projectos entre as duas. Fá-lo a partir da exploração das implicações da sua ideia de equipamento mental inato e da forma como, a partir de Wittgenstein, se pode pensar sobre o ‘paroquial’. O pretexto da entrevista foram as opiniões (críticas) de Ch. Travis sobre a teoria da mente de J Fodor, um dos mais influentes filósofos da mente contemporâneos, e um dos objectos centrais de estudos do Projecto RBD2.

Também o programa de investigação de Steven Stich (University of Rutgers Center for Cognitive Science) visa aquilo que na ciência cognitiva é importante para a filosofia. No caso do artigo aqui publicado, trata-se de investigar a relação das emoções com a (ir)racionalidade, recusando a interpretação da relação racionalidade-emoções que se difundiu a partir do trabalho de A Damásio (devido ao seu papel nos processos de decisão, as emoções seriam racionais). Escrevendo com um psiquiatra e filósofo (Chandra Sripada, actualmente na Universidade do Michigan), Stich dá assim mais um passo no seu programa de investigação em psicologia moral, e em filosofia moral. O artigo é traduzido por Tomás Magalhães, que já tinha traduzido um texto de Stich e colaboradores para a Intelectu nº 9.

O artigo de Clara Morando resulta de uma leitura de Stich e Nichols 2003, Mindreading. Teorias da Mente, ou da mentalidade (theories of mind) é uma expressão usada para a capacidade que agentes possuem de atribuir estados mentais (crenças, desejos, pensamentos, emoções) a outros agentes e a si próprios, ganhando assim a possibilidade de interpretar o comportamento. A investigação empírica acerca de teorias da mentalidade teve um grande incremento nos anos 80, quando foi descoberto que as perícias psicológicas para a leitura de mentes numa criança dão um salto entre o 3ª e o 4ª ano de vida (Wimmer &Perner 1983, Beliefs about beliefs). Antes disso as crianças não compreendem que outras pessoas, outros agentes, podem ter crenças falsas. A capacidade de leitura de mentes traz a capacidade de entender que outros agentes podem ter crenças falsas e representa um enorme salto cognitivo. S. Baron-Cohen, A. Leslie & U. Frith (1985, Does the autistic child have a theory of mind?) levantaram a hipótese da ausência de tais perícias cognitivas no autismo (as pessoas autistas seriam agentes com capacidades deficientes de leitura de mentes). Em Mindreading 2003, Stich e Nichols revêm a literatura das últimas duas décadas e propõem um modelo da leitura de mentes. Clara Morando analisa esse modelo.

O trabalho de Carlos Mauro resulta de uma dissertação de doutoramento em curso sobre racionalidade na acção. Nas palavras do autor, cuja área original de formação e docência é a economia, «O objectivo teórico central da (sua) tese é propor um modelo de racionalidade na acção que consiga dar conta da explicação da acção dos agentes reais, sem sucumbir à normatividade comum e ao moralismo, ao mesmo tempo em que promova, pelo menos neste tema, o alinhamento ou aproximação teórica entre a Filosofia e a Economia (…)O objectivo específico é contribuir para a produção das respostas às seguintes questões: i) Pode um agente levar a cabo de facto uma acção irracional? e ii) É possível ocorrer Akrasia num agente real? Estas são questões clássicas, latentes e essenciais para a explicação da conduta humana. O objectivo social é contribuir com avanços teóricos que possam tornar mais eficazes as políticas públicas sociais ou de gestão, assim como as políticas económicas de estabilização da economia, de distribuição de renda e de crescimento económico. Estes elementos teóricos derivam dos avanços que serão propostos na concepção de racionalidade na acção, mas, principalmente do possível deslocamento da Economia do Bem-Estar da Teoria Económica Positiva para a Teoria Económica Normativa com forte influência dos debates da Filosofia Moral. ».

Em J. Fodor e os problemas da filosofia da mente, Sofia Miguens, partindo do princípio de que a obra de Jerry Fodor é, hoje, incontornável na filosofia da mente como disciplina, enuncia os problemas da filosofia da mente segundo Fodor, bem como as soluções que ele desenvolve, ao longo da sua obra, para esses problemas. Sendo Fodor um dos autores centrais do Projecto RBD2, este artigo é um ponto da situação de discussões em curso, e deve ser cruzado com as críticas a Fodor feitas por Charles Travis na entrevista O que tem a filosofia a dizer à psicologia?

Em O Problema do Auto-Conhecimento, Sofia Miguens aborda o problema do auto-conhecimento. Embora este seja formulável como um problema epistemológico acerca do que podemos saber e da forma como adquirimos um certo tipo de conhecimento, parte do seu interesse reside no facto de intersectar questões tais como a introspecção, o acesso privilegiado, a auto-consciência, a autoridade de primeira pessoa, a agência e o auto-engano. A autora procura formular os princípios de um modelo para a investigação do auto-conhecimento em termos de entendimento linguístico, que ultrapasse as limitações dos modelos cartesiano (observacional) e wittgenteiniano (expressivo).

O artigo de Tomás Magalhães Para acabar de vez com o cognitivismo avança uma crítica às explicações cognitivistas do comportamento humano (as explicações cognitivistas explicam os processos raciocínio e de tomada de decisão exclusivamente através do recurso a atitudes proposicionais como crenças, desejos e intenções). O autor defende que crenças, desejos e intenções não são os únicos motores da acção. As emoções e outros processos não cognitivos, tais como as protoemoções, produzem comportamento e participam no processo de tomada de decisão. Entretanto, Tomás Magalhães revê a literatura filosófica sobre emoções».

Porto – Los Angeles, Setembro de 2005, Sofia Miguens (Investigadora-Responsável do Projecto POCI/FIL/55555/2004) e Sara Bizarro (Editora da Intelectu)

 

 

 

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